Capítulo
1. Reblochon AOP: O Guia Definitivo do Queijo da Tartiflette
O Reblochon (ou Reblochon de Savoie) é um queijo francês de pasta prensada não cozida com casca lavada, feito de leite cru e integral de vaca nos Alpes, principalmente na Alta Saboia. É o queijo que dá alma à tartiflette — e que se tornou, graças a esse prato, um dos queijos mais amados e reconhecidos da França.
Reconhecê-lo é fácil: um cilindro achatado de casca amarelo-alaranjada, coberto por uma fina "espuma branca" que atesta uma boa maturação, envolvendo uma massa cremosa e amendoada. Por trás da simplicidade, esconde-se uma das histórias de origem mais curiosas — e deliciosas — da gastronomia francesa.
Capítulo
1.1. O que é o Reblochon e por que ele é a alma da tartiflette?
O Reblochon é um queijo de pasta mole com casca lavada, em forma de cilindro plano com cerca de 14 centímetros de diâmetro, 3,6 centímetros de altura e peso médio entre 450 e 550 gramas. Sua massa cremosa e seu sabor de avelã o tornam o ingrediente perfeito para derreter.
A tartiflette — o gratinado de batatas, toucinho e cebola coberto com Reblochon — foi criada justamente para valorizar esse queijo. É ela que projetou o Reblochon para o mundo, transformando um queijo regional em estrela internacional da cozinha alpina.
Capítulo
1.2. O que é um queijo de pasta mole com casca lavada?
Um queijo de pasta mole com casca lavada é aquele cuja crosta é regularmente lavada e esfregada durante a maturação. Essa técnica favorece o desenvolvimento de bactérias que dão ao queijo sua casca alaranjada e seu aroma característico.
No Reblochon, a lavagem regular molda a casca amarelo-alaranjada e contribui para o sabor amendoado. É uma técnica que exige paciência e cuidado, realizada queijo por queijo, e que distingue o Reblochon dos queijos de casca florida, mais suaves.
Capítulo
1.3. O que significa a sigla AOP e o que ela protege no Reblochon?
A sigla AOP significa Appellation d'Origine Protégée (Denominação de Origem Protegida), o selo da União Europeia que garante a origem e o método de um produto. No caso do Reblochon, a denominação francesa AOC foi estabelecida por decreto em 7 de agosto de 1958, e a proteção europeia AOP veio em 1996.
O selo protege o essencial: o território dos Alpes, as raças bovinas, a alimentação do gado e o método de fabricação. Comprar um Reblochon AOP é garantir que se está diante do queijo autêntico da Saboia — e não de uma imitação.
Capítulo
2. A Origem do Reblochon: A Lenda da Segunda Ordenha
Poucos queijos têm uma história de origem tão saborosa quanto a do Reblochon. Ela nasce de uma fraude — e essa fraude, contada com orgulho, virou lenda.
Capítulo
2.1. O que significa a palavra "reblochon" e de onde ela vem?
A palavra reblochon vem do dialeto saboiano "re-blocher", que significa "beliscar de novo" — referindo-se ao úbere da vaca. A forma original seria rebléchon, de re-bléchier, que quer dizer "ordenhar uma segunda vez".
Há ainda quem associe o nome a reblasse, termo local para designar a fraude ou a maraudagem ligada a essa prática. A etimologia, portanto, já carrega o segredo da origem do queijo: um segundo ordenhamento, feito às escondidas.
Capítulo
2.2. Por que os camponeses faziam uma segunda ordenha?
A história remonta ao menos à Renascença — talvez à Idade Média. Os camponeses pagavam ao proprietário — muitas vezes uma abadia — uma renda em espécie, a ociège, calculada conforme o volume de leite da ordenha diária.
No dia da cobrança, o proprietário ou seu representante verificava o volume ordenhado. Reza a lenda que os camponeses faziam, então, uma ordenha incompleta diante do fiscal, para reduzir a avaliação — e uma segunda ordenha clandestina após a partida dele. Esse leite, escasso mas riquíssimo em creme, dava um queijo mais gordo e de qualidade superior.
Capítulo
2.3. Como a lenda da segunda ordenha explica a cremosidade do Reblochon?
O leite da segunda ordenha, pouco abundante mas muito rico em gordura, é a chave do Reblochon. É ele que confere ao queijo sua cremosidade e seu caráter untuoso, que ainda hoje o distinguem.
Sob o Antigo Regime, a monetização das rendas levou os camponeses a vender esses queijos, até então reservados ao consumo doméstico. E os proprietários, percebendo o que perdiam, passaram a exigir sua parte. A lenda é contada com orgulho pelos produtores — como prova de autenticidade de um queijo que nasceu, literalmente, da esperteza dos camponeses dos Alpes.
Capítulo
3. O Território do Reblochon: Os Alpes e o Vale de Thônes
O Reblochon é um queijo de montanha, nascido nas encostas dos Alpes. Seu território é vasto, mas profundamente ligado a uma paisagem única.
Capítulo
3.1. Onde fica a região de origem do Reblochon?
O Reblochon nasceu no maciço das Bornes e nos Aravis, principalmente no vale de Thônes, na Alta Saboia. Com o tempo, a produção estendeu-se ao val d'Arly e ao maciço das Bauges, e a algumas comunas da Saboia.
É uma região de montanhas, vales e pastagens de altitude — os famosos alpages —, onde a pecuária leiteira é uma tradição milenar. É essa paisagem que molda o leite e, por consequência, o queijo.
Capítulo
3.2. O que o terroir dos Aravis dá ao sabor do Reblochon?
O terroir dos Aravis — com suas pastagens de montanha, clima rigoroso e flora rica — imprime no leite um caráter que não se reproduz em nenhum outro lugar. As vacas transformam essa paisagem em leite de qualidade superior.
O Reblochon carrega, assim, em sua cremosidade e em seu sabor de avelã, a alma dos Alpes: as ervas de altitude, o ar puro e a tradição secular dos pastores saboianos.
Capítulo
3.3. O maciço dos Aravis e a tradição dos alpages
Os alpages são as pastagens de altitude onde o gado passa o verão. É neles que, historicamente, se produzia o leite para o Reblochon fermier — feito na própria montanha, durante a transumância.
Essa tradição dos alpages é o coração da identidade do Reblochon: um queijo ligado ao ciclo das estações, ao trabalho dos pastores e à vida nas alturas. Até hoje, o Reblochon fermier é feito no inverno na fazenda e, no verão, no alpage.
Capítulo
4. O Leite e as Vacas: Abondance, Tarine e Montbéliarde
Antes do queijo, há o leite. E, no Reblochon, o leite vem de três raças montanhesas que contam a história da região.
Capítulo
4.1. Quais raças de vacas fornecem o leite do Reblochon?
O Reblochon é feito exclusivamente com leite de três raças bovinas de montanha: a Tarentaise (ou Tarine), a Abondance e a Montbéliarde — todas de pelagem vermelha ou malhada de vermelho.
São raças rústicas, adaptadas ao clima alpino, conhecidas pela qualidade do leite. Ao restringir as raças, a AOP garante a constância e a tipicidade da matéria-prima, preservando o vínculo ancestral entre o rebanho e a montanha.
Capítulo
4.2. O leite cru obrigatório e as regras de produção do Reblochon
O Reblochon é feito com leite cru e integral de vaca — sem qualquer pasteurização. E as regras de produção são rigorosas: o feno e o pasto constituem o essencial da alimentação, e os alimentos fermentados (silagem) e os OGMs são proibidos.
É uma pecuária pensada para a saúde da terra e o sabor do queijo. O leite cru, com sua flora natural, é o que dá ao Reblochon sua riqueza aromática e seu caráter autêntico.
Capítulo
4.3. Quanto leite é necessário para um Reblochon?
A matemática do Reblochon é simples mas reveladora: são necessários, em média, quatro litros de leite cru e integral para fabricar um Reblochon de 500 gramas.
Essa relação explica a riqueza do queijo: cada roda concentra o melhor do leite das vacas dos Alpes. É um queijo generoso, em que cada grama carrega a cremosidade de muito leite de qualidade.
Capítulo
5. Como é Feito o Reblochon: Do Leite à Casca Lavada
A fabricação do Reblochon combina gestos ancestrais e técnica. Cada etapa — do coalho à lavagem da casca — é ditada pelo caderno de especificações e executada com regularidade quase ritual.
Capítulo
5.1. O processo de fabricação do Reblochon passo a passo
Tudo começa com o leite cru integral, aquecido a cerca de 37 °C e coalhado com coalho. O coalho formado é então delicadamente cortado em pequenos grãos, que são repartidos em moldes.
Em seguida, o queijo é prensado por mais de uma hora — sendo virado nesse período —, para terminar a drenagem e eliminar o excesso de soro. Depois, é desenformado e salgado. É um processo que exige precisão e paciência, condicionando o desenvolvimento posterior dos aromas.
Capítulo
5.2. A forma achatada e o peso característico do Reblochon
A forma do Reblochon é uma de suas assinaturas: um cilindro achatado, com cerca de 14 centímetros de diâmetro e 3,6 centímetros de altura. Há também o petit reblochon, de formato reduzido — cerca de 9 centímetros de diâmetro e peso entre 240 e 280 gramas.
Essa geometria achatada permite uma maturação uniforme e uma casca proporcional à massa. É a forma ideal para um queijo cremoso, que precisa "respirar" durante a maturação.
Capítulo
5.3. A lavagem da casca e o desenvolvimento do aroma
Após a salga, o Reblochon é levado a um secador, a uma temperatura de 16 a 18 °C, onde permanece por quatro dias. Em seguida, segue para a cave de maturação, onde é lavado e virado regularmente.
É nessa etapa que a casca ganha sua cor amarelo-alaranjada e desenvolve o aroma característico. A casca pode até ser colorida artificialmente com caroteno ou urucum — mas a "espuma branca" que a recobre, sinal de boa maturação, é natural e inconfundível.
Capítulo
6. A Maturação do Reblochon: Do Reblochon Fermier ao Laitier
O Reblochon existe em duas grandes versões — e a maturação revela as diferenças. Conhecer o fermier e o laitier é entender a riqueza desse queijo.
Capítulo
6.1. O que acontece durante as semanas de maturação?
A maturação mínima do Reblochon é de 18 dias — e um reblochon affiné pode chegar a seis semanas. Durante esse período, o queijo é lavado e virado regularmente, desenvolvendo sua casca e seu sabor.
O Reblochon laitier passa pelo menos 15 dias em cave de maturação, após os quatro dias no secador. É um processo lento, em que cada dia adiciona uma camada de cremosidade e de sabor de avelã.
Capítulo
6.2. Qual é a diferença entre o Reblochon fermier e o laitier?
Os dois tipos são identificados por uma pastilha de caseína: vermelha para o laitier e verde para o fermier. Essa pastilha traça e identifica o queijo, com o número do ateliê, o lote e a data de transformação.
O fermier é feito na própria fazenda, com o leite de um só rebanho, emprésurado imediatamente após a ordenha — sem refrigeração nem reaquecimento, preservando todas as qualidades do leite cru. Ele deve passar os primeiros oito dias na fazenda de origem. O laitier, por sua vez, é produzido em fruitières, com leite coletado e misturado de várias fazendas.
Capítulo
6.3. Como o Reblochon desenvolve sua casca alaranjada?
A casca alaranjada do Reblochon vem da lavagem regular durante a maturação, que favorece o desenvolvimento das bactérias da casca. É um processo artesanal, realizado queijo por queijo.
O Reblochon fermier, em especial, é prensado à mão em moldes forrados com uma fina etamine de linho, e virado várias vezes. A pastilha verde, colocada em cada um, garante a origem fermier e a identificação da família produtora. É a garantia de um queijo autêntico, ligado à terra e à tradição.
Capítulo
7. As Características do Reblochon: Sabor, Aroma, Cor e Textura Explicados
Aprender a ler um Reblochon é descobrir um queijo de contrastes: casca alaranjada, massa cremosa, sabor de avelã. Cada fatia é uma experiência completa.
Capítulo
7.1. Qual é o sabor do Reblochon? Cremoso, suave e amendoado
O sabor do Reblochon é marcado por uma nota amendoada persistente — a assinatura do queijo. É cremoso, suave e levemente untuoso, com uma riqueza que vem do leite cru e integral das vacas dos Alpes.
A intensidade cresce com a maturação: um queijo jovem é mais delicado, enquanto um reblochon affiné ganha corpo e um sabor mais profundo. É essa progressão que torna o Reblochon fascinante, do suave ao intenso.
Capítulo
7.2. Por que o Reblochon tem aquela casca alaranjada?
A casca do Reblochon é amarelo-alaranjada, recoberta por uma fina "espuma branca" que atesta uma boa maturação em cave fresca. A cor alaranjada vem da lavagem regular e do desenvolvimento das bactérias da casca.
Em alguns casos, a casca pode ser colorida artificialmente com caroteno ou urucum. Mas a espuma branca é natural e inconfundível — o sinal de que o queijo foi bem cuidado durante a maturação.
Capítulo
7.3. A textura do Reblochon: por que ele é tão cremoso?
A textura do Reblochon é sua grande virtude: a massa é cremosa, macia e fundente, graças ao leite cru integral e ao processo de fabricação. É essa cremosidade que o torna perfeito para derreter — e a alma da tartiflette.
O Reblochon fermier, feito sem refrigeração, preserva ao máximo as qualidades organolépticas do leite, resultando em uma textura ainda mais rica e untuosa. É um queijo que "derrete" na boca, envolvendo o paladar em uma sensação aveludada.
Capítulo
8. A Tartiflette: A Receita Que Fez o Reblochon Famoso no Mundo
Se o Reblochon é hoje conhecido no mundo inteiro, o mérito é da tartiflette. Esse prato simples e reconfortante transformou um queijo regional em estrela global.
Capítulo
8.1. O que é a tartiflette e como ela nasceu?
A tartiflette é um gratinado de batatas, toucinho e cebola, coberto com meio Reblochon derretido. É um prato rústico, reconfortante e profundamente saboiano.
Curiosamente, a tartiflette é uma invenção relativamente recente: foi lançada nos anos 1980 justamente para estimular as vendas do Reblochon no inverno. O nome vem de tartiflâ, o termo saboiano para batata. Em poucas décadas, o prato conquistou a França e o mundo.
Capítulo
8.2. Quais são os ingredientes da verdadeira tartiflette?
A verdadeira tartiflette leva poucos ingredientes, mas cada um é essencial: batatas, toucinho defumado (lardons), cebola, vinho branco e, claro, o Reblochon — cortado ao meio e colocado com a casca para cima.
A simplicidade é a chave: o Reblochon derrete sobre as batatas, formando uma crosta dourada e cremosa. É um prato que celebra o queijo, sem escondê-lo sob excesso de ingredientes.
Capítulo
8.3. Como fazer uma tartiflette perfeita em casa?
Fazer uma tartiflette em casa é simples: doure o toucinho e a cebola, cozinhe as batatas em fatias, misture tudo em um prato de forno e cubra com o Reblochon cortado ao meio.
Leve ao forno até o queijo derreter e dourar. Sirva quente, com uma salada verde e um vinho branco da Saboia. O segredo está no Reblochon de boa qualidade — de preferência um fermier, de casca alaranjada e massa cremosa.
Capítulo
9. Como Servir o Reblochon: Temperatura, Corte e Harmonização Perfeitos
Chegou a hora do prazer. Servir bem um Reblochon é respeitar seus rituais — e a escolha certa de temperatura, corte e vinho transforma a experiência.
Capítulo
9.1. Em qual temperatura o Reblochon deve ser servido?
O Reblochon é servido, idealmente, levemente mais fresco que a temperatura ambiente — em torno de 16 °C. O ideal é deixá-lo em uma peça temperada cerca de duas horas antes de consumir.
Nessa temperatura, a massa atinge a cremosidade ideal sem se desfazer, e o sabor de avelã se revela plenamente. É o ponto em que o Reblochon mostra por que é um dos queijos mais amados da França.
Capítulo
9.2. Como cortar o Reblochon corretamente?
O Reblochon, com sua forma de cilindro achatado, deve ser cortado em fatias triangulares, como um bolo — do centro para as bordas. Cada fatia preserva a proporção de casca e massa cremosa.
Com um corte limpo e uma lâmina fina, o Reblochon mantém sua forma elegante. E, claro, ele pode ser servido inteiro, para que cada um se sirva — o que é parte do ritual convivial do queijo.
Capítulo
9.3. Quais vinhos harmonizam com o Reblochon?
O Reblochon encontra sua alma gêmea nos vinhos brancos da Saboia, como o Apremont e o Chignin — frescos, minerais e leves, que cortam a cremosidade do queijo.
Também funcionam os brancos secos e aromáticos, como um Jacquère ou um Chardonnay da região. A regra é simples: vinhos brancos frescos e minerais, que dialogam com a suavidade do Reblochon sem dominá-la.
Capítulo
10. O Reblochon na Gastronomia e na Cultura Saboiana
Mais que um alimento, o Reblochon é um emblema da Saboia. Sua presença atravessa a gastronomia, a cultura e a identidade dos Alpes franceses.
Capítulo
10.1. O Reblochon na culinária da Saboia: além da tartiflette
O Reblochon é um pilar da cozinha saboiana. Além da tartiflette, ele é ingrediente essencial da péla — o prato de batatas fritas com queijo — e da reblochonnade, em que o queijo é derretido na frigideira e servido com batatas e embutidos.
São pratos rústicos, generosos e reconfortantes, que celebram o queijo da montanha. O Reblochon é, em suma, o protagonista da mesa saboiana — um queijo que se derrete em tradição.
Capítulo
10.2. O Reblochon como símbolo cultural dos Alpes franceses
O Reblochon transcendeu a cozinha para se tornar um símbolo cultural dos Alpes franceses. Ele carrega a história dos pastores, dos alpages e da vida nas montanhas — uma identidade que remonta a séculos.
Sua lenda de origem, a da segunda ordenha, é contada com orgulho como prova de autenticidade. O Reblochon é, assim, um produto que resume, em uma fatia, toda uma cultura alpina — sua paisagem, seu povo e sua história.
Capítulo
10.3. A Confraria do Reblochon e as festas do queijo
Como todo grande queijo francês, o Reblochon tem sua confraria — a Confraria do Reblochon —, que reúne produtores e apreciadores em defesa da tradição. As confrarias organizam festas, intronizações e degustações ao longo do ano.
Essas celebrações mantêm viva a memória e o orgulho do queijo. Participar de uma festa do Reblochon, nos Alpes, é vivenciar a cultura saboiana não apenas no prato, mas como uma tradição viva e festiva.
Capítulo
11. A AOC de 1958 e a Proteção do Reblochon
A proteção legal do Reblochon é antiga e robusta. O queijo conquistou sua denominação cedo — e a consolidou ao longo das décadas.
Capítulo
11.1. Como o Reblochon conquistou sua denominação AOC?
Em 7 de agosto de 1958, um decreto estabeleceu a Appellation d'Origine Contrôlée (AOC) do Reblochon, protegendo sua produção. Foi o reconhecimento oficial de um queijo cuja identidade está ligada aos Alpes da Saboia.
A denominação foi um marco: fixou o território, as raças e o método, garantindo que o nome Reblochon permanecesse atado às suas raízes. O caderno de especificações foi complementado em 1976, 1986, 1990, 1999, 2012 e 2015.
Capítulo
11.2. O que o caderno de especificações exige do Reblochon AOP?
O caderno de especificações do Reblochon define tudo: as três raças autorizadas, a alimentação do gado (sem silagem nem OGMs), o uso do leite cru integral e o processo de fabricação. Ele permite ainda o petit reblochon, de formato menor.
A maturação mínima é de 18 dias. O Reblochon fermier, mais estrito, deve usar o leite de um só rebanho e passar os primeiros oito dias na fazenda. São regras que preservam a autenticidade do queijo.
Capítulo
11.3. Da AOC à AOP: a evolução da proteção europeia
Com a criação da União Europeia, o Reblochon obteve a AOP em 1996, estendendo a proteção a todo o continente. O nome Reblochon tornou-se, assim, uma denominação protegida em toda a Europa.
Curiosamente, a proteção também gera restrições: desde 2004, o Reblochon é proibido de importação nos Estados Unidos — como outros queijos de leite cru —, por não ser maturado pelo mínimo de 60 dias exigido pela legislação americana. Um paradoxo que só reforça sua aura de produto autêntico e intransigente.
Capítulo
12. A Produção do Reblochon Hoje: Números, Produtores e o Futuro
Por trás da tradição, há uma cadeia produtiva real — vasta, diversa e em transformação. Conhecer seus números é dimensionar a importância do Reblochon.
Capítulo
12.1. Quantas toneladas de Reblochon são produzidas por ano?
A produção de Reblochon é expressiva: cerca de 15.775 toneladas em 2024, com um pico de 17.404 toneladas em 2002. Em 2019, com 15.598 toneladas, ele era a terceira AOP francesa em volume.
A produção fermier representa cerca de 15% do total — uma parcela preciosa e em crescimento. O Reblochon é, em suma, um gigante regional com alma artesanal.
Capítulo
12.2. Quem são os produtores do Reblochon AOP?
A cadeia do Reblochon é vasta: em 2022, havia 942 produtores de leite, dos quais 161 produtores fermiers, além de 18 queijeiros industriais e 11 empresas de maturação. A filière é organizada em um sindicato interprofissional com 24 membros eleitos.
É uma estrutura que vai da fazenda de montanha à grande laiteria, unida pela origem comum do leite dos Alpes. E há um debate em curso: a compra da Verdanet pelo grupo Lactalis, em 2023, acendeu preocupações sobre a concentração do setor.
Capítulo
12.3. Quais são os desafios do Reblochon AOP no século XXI?
O Reblochon enfrenta os dilemas de todo queijo tradicional: a concentração industrial, a concorrência de cópias baratas e o desafio de preservar o fermier — o elo mais autêntico com a tradição.
Há ainda a questão das imitações: queijos "para tartiflette" vendidos em supermercados, com bandeira saboiana na embalagem, enfurecem os produtores. O desafio do Reblochon no século XXI é defender sua identidade frente à padronização — sem jamais trair suas raízes alpinas.
Capítulo
13. Onde Provar o Reblochon na França: Guia Prático para o Turista
Nenhuma viagem aos Alpes franceses está completa sem uma peregrinação ao território do Reblochon. Do vale de Thônes às fazendas de montanha, há um roteiro inteiro a descobrir.
Capítulo
13.1. O vale de Thônes e a região do Aravis
O vale de Thônes, na Alta Saboia, é o berço histórico do Reblochon. Aninhado no maciço dos Aravis, ele é um dos recantos mais bonitos dos Alpes, com suas pastagens, chalés e vilarejos de montanha.
Visitar a região é mergulhar na história do queijo. É ali que se encontram as fazendas e fruitières que, há séculos, produzem o Reblochon — e onde se pode provar o queijo em seu ambiente natural.
Capítulo
13.2. Visitar uma fazenda ou fromagerie produtora de Reblochon
Muitas fazendas e fromageries dos Alpes abrem suas portas aos visitantes. É possível acompanhar a fabricação, a lavagem da casca e a maturação — o processo completo do Reblochon.
Muitas oferecem degustações e vendem o Reblochon fermier, a versão mais autêntica. Visitar uma delas é ver de perto o trabalho artesanal — a prensagem à mão, a virada dos queijos — que nenhuma indústria reproduz.
Capítulo
13.3. Como comprar e transportar o Reblochon na viagem?
O Reblochon é um queijo que exige algum cuidado no transporte: mantenha-o refrigerado, em sua embalagem adequada, e consuma-o em poucos dias. Por ser cremoso, deve ser protegido de impactos.
Na hora de comprar, procure a denominação Reblochon AOP e a pastilha de caseína — vermelha para o laitier, verde para o fermier. E, se puder, escolha o fermier, feito na fazenda e mais autêntico. Uma boa compra é aquela que leva para casa o verdadeiro sabor da Saboia.
Capítulo
14. FAQ
14.0.1 O que significa a palavra "reblochon"?
Vem do saboiano "re-blocher", que significa "beliscar de novo" — referindo-se à segunda ordenha da vaca. A forma original seria rebléchon, "ordenhar uma segunda vez".
14.0.2 Por que o Reblochon é associado a uma fraude?
Segundo a lenda, os camponeses faziam uma ordenha incompleta diante do fiscal (para reduzir a renda devida) e uma segunda ordenha clandestina depois. Esse leite, rico em creme, dava um queijo mais gordo.
14.0.3 O Reblochon é feito com leite cru ou pasteurizado?
O Reblochon é feito exclusivamente com leite cru e integral de vaca, sem qualquer pasteurização.
14.0.4 Quais raças de vacas fornecem o leite do Reblochon?
Três raças montanhesas: a Tarentaise (Tarine), a Abondance e a Montbéliarde.
14.0.5 Quantos litros de leite são necessários para um Reblochon?
São necessários, em média, quatro litros de leite cru para fabricar um Reblochon de 500 gramas.
14.0.6 Qual é a diferença entre o Reblochon fermier e o laitier?
O fermier (pastilha verde) é feito na fazenda, com leite de um só rebanho, sem refrigeração. O laitier (pastilha vermelha) é feito em fruitières, com leite coletado de várias fazendas.
14.0.7 Quanto tempo o Reblochon matura?
A maturação mínima é de 18 dias, podendo chegar a seis semanas para um reblochon affiné.
14.0.8 O que é a tartiflette?
É um gratinado de batatas, toucinho e cebola, coberto com meio Reblochon derretido. Foi criada nos anos 1980 para estimular as vendas do queijo no inverno.
14.0.9 Qual vinho combina com o Reblochon?
Os vinhos brancos da Saboia, como o Apremont e o Chignin, são os clássicos. Brancos secos e minerais harmonizam muito bem.
14.0.10 O Reblochon é seguro para gestantes?
Por ser feito com leite cru, o Reblochon não é recomendado para gestantes, devido ao risco de Listeria.
14.0.11 Por que o Reblochon é proibido nos Estados Unidos?
Desde 2004, o Reblochon é proibido de importação nos EUA por ser um queijo de leite cru não maturado pelo mínimo de 60 dias exigido pela legislação americana.
14.0.12 Qual é o peso médio de um Reblochon?
Um Reblochon pesa, em média, entre 450 e 550 gramas, com cerca de 14 centímetros de diâmetro. O petit reblochon pesa entre 240 e 280 gramas.
14.0.13 O Reblochon pode ser congelado?
Não é recomendado. O congelamento altera a textura cremosa do Reblochon. O ideal é comprar a quantidade certa e consumir fresco.