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Festival de Cannes

Cultura · Festivais e Feiras

Festival de Cannes

O tapete vermelho, a Palma de Ouro e o epicentro do glamour e do cinema mundial na Riviera Francesa.

Sumário

Índice da matéria

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  1. 1. A Origem Misteriosa do Festival: Por Que Cannes Foi Escolhida em Vez de Biarritz?
  2. 2. A Palma de Ouro e os Anos Dourados: Como Cannes Criou o Maior Prêmio do Cinema Mundial
  3. 3. Política e Escândalos: Quando Cannes Virou Palco de Batalhas Mundiais
  4. 4. Os Filmes e os Diretores que Marcaram Época em Cannes
  5. 5. O Ritual do Tapete Vermelho e os Segredos da Croisette
  6. 6. Os Bastidores do Festival: Como Funciona a Máquina de Cannes
  7. 7. Cannes e os Outros Festivais: Como a Riviera se Compara
  8. 8. Cannes Para o Turista: O Que Fazer Fora do Festival
  9. 9. Festas, Fofocas e o Lado Obscuro do Festival
  10. 10. Cannes em Números e o Legado do Maior Festival do Mundo

Capítulo

1. A Origem Misteriosa do Festival: Por Que Cannes Foi Escolhida em Vez de Biarritz?

1.1 Jean Zay e a Revolta Contra Mussolini: Como a Política Criou o Maior Festival do Cinema

O Festival de Cannes nasceu de um ato de revolta política. Em 1938, durante a 6ª Mostra Internacional de Cinema de Veneza (Mostra de Veneza), os governos fascistas de Benito Mussolini e Adolf Hitler interferiram diretamente no júri para garantir que os prêmios fossem para filmes italianos e alemães, transformando o que deveria ser uma celebração da arte cinematográfica em um palco de propaganda nazifascista.

O estopim foi a premiação da Coppa Mussolini (Taça Mussolini) de melhor filme estrangeiro para "Olympia" (1938), documentário alemão dirigido por Leni Riefenstahl sobre os Jogos Olímpicos de Berlim de 1936 — embora o regulamento da mostra proibisse explicitamente a premiação de documentários. Na categoria de melhor filme, a vitória foi para "Luciano Serra, Piloto", produção italiana supervisionada pelo filho de Mussolini, Vittorio Mussolini. As delegações francesa, britânica e americana retiraram-se indignadas, jurando não voltar.

Foi nesse contexto que Philippe Erlanger, historiador e diplomata francês que representava o governo francês em Veneza, teve a ideia de criar um festival alternativo — livre, neutro e sem pressões políticas. Na volta de trem de Veneza para Paris, em 3 de setembro de 1938, Erlanger redigiu um relatório endereçado ao ministro da Educação Nacional e Belas Artes, Jean Zay, propondo a criação de um "festival das nações livres" em solo francês.

Jean Zay (1904-1944) era uma figura excepcional: advogado, escritor e político, foi o ministro mais jovem da história da França (tomou posse aos 32 anos). Nascido em Orléans, filho de um casal de professores judeus, Zay era um republicano convicto e um defensor ferrenho da cultura como instrumento de emancipação popular. Ele abraçou entusiasticamente a proposta de Erlanger, vendo no festival uma oportunidade de afirmar os valores democráticos contra o avanço do fascismo na Europa.

O governo francês inicialmente hesitou. O contexto internacional era explosivo — o Acordo de Munique (setembro de 1938) havia sido assinado há poucos meses, e a França temia ofender a Itália de Mussolini. Mas Zay e Erlanger insistiram, e em janeiro de 1939 o ministro do Interior, Albert Sarraut, deu o aval definitivo. Em 31 de maio de 1939, a cidade de Cannes e o governo francês assinaram a certidão de nascimento oficial do "Festival International du Film".

Zay não veria o festival que ajudou a criar. Em 1940, após a invasão alemã da França, ele foi preso pelo regime de Vichy por suas origens judaicas e suas convicções republicanas. Em 20 de junho de 1944, foi executado por milicianos franceses a serviço dos nazistas em uma floresta perto de Molles (Allier), aos 39 anos. Seu corpo só foi encontrado em 1948. Em 2015, seus restos mortais foram transferidos para o Panthéon, onde hoje repousa ao lado de outros heróis nacionais franceses — uma homenagem tardia ao homem que, em plena ascensão do fascismo, ousou criar um festival para celebrar a liberdade.

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1.2 A Primeira Edição Cancelada (1939): O Que Aconteceu naquela Noite de Setembro?

A primeira edição do Festival de Cannes estava marcada para 1º a 20 de setembro de 1939, no auditório do Cassino Municipal de Cannes. Os preparativos foram suntuosos: o pintor Jean-Gabriel Domergue criou o pôster oficial, uma réplica em papelão da Catedral de Notre-Dame foi construída na praia para promover o filme americano "O Corcunda de Notre-Dame" (William Dieterle, 1939), e um transatlântico fretado pela Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) deveria cruzar o litoral de Cannes com Gary Cooper, Cary Grant, Tyrone Power, Norma Shearer e Spencer Tracy a bordo.

Dezessete países confirmaram participação, incluindo Estados Unidos, Reino Unido, União Soviética, Polônia, Tchecoslováquia, Bélgica, Suécia e Países Baixos. A seleção americana incluía filmes como "O Mágico de Oz" (Victor Fleming), "A Mulher Faz o Homem" (Frank Capra) e "Só os Anjos Têm Asas" (Howard Hawks). A França inscreveu "O Nigger" (baseado na obra de Joseph Kessel), e a União Soviética enviou "Amanhã é Guerra".

Os primeiros festeiros começaram a chegar a Cannes no final de agosto. As festas de antes da abertura foram luxuosas — coquetéis, jantares, desfiles de moda na praia. Mas as nuvens de guerra se avolumavam no horizonte. Em 1º de setembro de 1939, as tropas alemãs invadiram a Polônia. O festival foi adiado por 10 dias, na esperança de que a crise se resolvesse. Em 3 de setembro, a França e o Reino Unido declararam guerra à Alemanha, e a mobilização geral foi decretada.

Apenas um filme foi exibido — de forma privada, não oficial: "O Corcunda de Notre-Dame", em uma sessão para convidados e jornalistas na noite de 31 de agosto para 1º de setembro. Diz a lenda que a plateia, ao ver o corcunda Quasímodo sobre a maquete de Notre-Dame na praia, teve um pressentimento sombrio — como se a beleza do cinema estivesse prestes a ser esmagada pela brutalidade da guerra.

Os filmes já selecionados foram devolvidos aos seus países, os atores e diretores voltaram para casa, e Cannes entrou em um silêncio que duraria sete anos. Em 2002, durante a 55ª edição do festival, a Palma de Ouro foi concedida retroativamente ao filme "Pacific Express" (Cecil B. DeMille, 1939), como reconhecimento simbólico da edição que nunca aconteceu.

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1.3 1946: O Ano em que Cannes Finalmente Nasceu (e Foi Uma Bagunça Memorável)

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, em julho de 1945, Philippe Erlanger reapresentou a ideia do festival ao novo governo francês. A França estava devastada pela guerra — cidades em ruínas, economia destruída, racionamento —, mas exatamente por isso o governo viu no festival uma oportunidade de reabilitar a imagem do país e atrair turistas de volta à Côte d'Azur.

O desafio financeiro era imenso. O Estado francês e a prefeitura de Cannes estavam sem recursos. A solução veio de uma combinação de doações privadas, subsídios municipais e uma taxa especial sobre os cassinos da região. Em 20 de setembro de 1946, o 1º Festival Internacional de Cinema de Cannes finalmente abriu suas portas, mais de sete anos após a tentativa frustrada de 1939.

A primeira edição foi, para dizer o mínimo, caótica. O local era o mesmo Cassino Municipal, adaptado às pressas para funcionar como sala de cinema. As condições eram precárias: na véspera da premiação, uma tempestade arrancou a lona que cobria o telhado, inundando parte do cassino. Os rolos do filme "Interlúdio" (Alfred Hitchcock, 1946) foram projetados na ordem inversa. O filme mexicano "Os Três Mosqueteiros" (Miguel M. Delgado, 1946) foi exibido de cabeça para baixo.

Dezenove países participaram, apresentando 41 longas-metragens e 50 curtas-metragens. Entre os destaques estavam "Farrapo Humano" (The Lost Weekend) de Billy Wilder, "Roma, Cidade Aberta" de Roberto Rossellini, "Breve Encontro" de David Lean e "A Batalha dos Trilhos" de René Clément. A ênfase era mais na criatividade e no intercâmbio cultural do que na competição — tanto que 11 filmes dividiram o Grand Prix (o prêmio máximo da época).

A bagunça de 1946, no entanto, teve um efeito inesperado: criou uma atmosfera de camaradagem e improvisação que marcou o espírito do festival nas décadas seguintes. Ao contrário da rigidez burocrática de Veneza, Cannes nasceu como uma festa — imperfeita, confusa, mas profundamente humana. Esse espírito de "bagunça criativa" é, até hoje, uma das marcas registradas do festival.

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1.4 Por Que o Festival Não Aconteceu em 1948 e 1950? (A Resposta Tem a Ver com Dinheiro)

Diferentemente do que muitos imaginam, o Festival de Cannes não foi realizado anualmente desde sua fundação. Duas edições — 1948 e 1950 — foram canceladas por razões exclusivamente financeiras. A história revela o precário equilíbrio entre idealismo cultural e realidade econômica que marcou os primeiros anos do festival.

Após o sucesso da edição de 1946, o festival cresceu rapidamente. A 2ª edição, em 1947, foi realizada normalmente, mas os custos de produção — aluguel do cassino, transporte de rolos de filme, hospedagem de delegações internacionais, tradução simultânea — superaram em muito o orçamento disponível. A França ainda se recuperava da guerra, e o governo não tinha recursos para subsidiar integralmente o evento.

Em 1948, a crise chegou ao auge. O Ministério das Finanças francês recusou-se a liberar os fundos necessários, e a prefeitura de Cannes, endividada, não conseguiu cobrir o déficit. O festival foi cancelado com poucas semanas de antecedência. Os filmes que já haviam sido inscritos foram devolvidos, e os convites, revogados.

O cancelamento de 1950 foi ainda mais frustrante porque o festival já estava em fase avançada de organização. As delegações de vários países já haviam confirmado presença, e os filmes estavam selecionados. Mas, novamente, o governo francês — sob a Quarta República, que enfrentava uma grave crise econômica e política — cortou o financiamento. O festival foi cancelado a poucos dias da abertura, gerando uma onda de protestos na indústria cinematográfica internacional.

A solução veio em 1951, quando o festival mudou suas datas — de setembro para abril/maio — para não coincidir com a Mostra de Veneza (que continuava sendo seu principal concorrente) e para aproveitar a temporada turística da Riviera Francesa. O novo calendário permitiu uma melhor captação de recursos, combinando subsídios estatais com receitas de turismo e patrocínios privados. A partir de 1951, o festival nunca mais foi cancelado — exceto em 2020, devido à pandemia de COVID-19.

Para o visitante que hoje chega a Cannes em maio e vê a cidade tomada pelo glamour do festival, é difícil imaginar que o evento já esteve à beira da falência duas vezes em seus primeiros quatro anos de existência. Mas essa fragilidade financeira inicial é parte essencial da história: Cannes sobreviveu porque a indústria cinematográfica mundial acreditava no projeto — e porque a cidade e o governo aprenderam, a duras penas, que o festival precisava de um modelo de financiamento sustentável.

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1.5 A Evolução do Palais des Festivals: Do Cassino Antigo ao Palácio Atual

O Festival de Cannes trocou de sede quatro vezes ao longo de sua história, cada mudança refletindo o crescimento e a profissionalização do evento. A trajetória dos prédios que abrigaram o festival é um estudo de caso sobre como um evento cultural pode transformar a arquitetura e o urbanismo de uma cidade.

1946-1951: A primeira sede foi o Cassino Municipal de Cannes (também conhecido como Palais des Fêtes), um edifício _belle époque_ localizado no início da Croisette. Construído em 1906, o cassino tinha um grande salão de festas que foi adaptado para funcionar como sala de cinema. A capacidade era limitada — cerca de 800 lugares — e as condições técnicas eram precárias (a cabine de projeção era improvisada, e o som deixava a desejar).

1952-1982: Com o crescimento do festival, o cassino tornou-se inadequado. Em 1952, foi inaugurado o Palais des Festivals original (hoje conhecido como Palais Croisette ou Palais Steak), construído no local do antigo Cassino Municipal. O novo prédio tinha capacidade para 1.700 pessoas na sala principal e marcou o início da associação entre o festival e a Croisette — a avenida beira-mar que se tornaria o eixo central do evento. Foi neste palácio que a Palma de Ouro foi introduzida em 1955 e que os grandes clássicos do cinema mundial foram exibidos nas décadas de 1950, 1960 e 1970.

1983-presente: Em 1983, foi inaugurado o atual Palais des Festivals et des Congrès, um imponente edifício de concreto e vidro localizado na Promenade de la Croisette, no extremo leste da praia. Projetado pelo arquiteto francês Sir Hubert Bennett, o palácio tem capacidade para 2.300 lugares na sala Grand Théâtre Lumière (a sala principal, onde ocorrem as exibições da competição oficial) e mais 1.000 lugares na sala Debussy. O edifício também abriga dezenas de salas de cinema menores, espaços para conferências, escritórios administrativos e a sede do Marché du Film.

O Palais des Festivals é facilmente reconhecível por sua escadaria de 24 degraus que leva à entrada principal — o famoso tapete vermelho. O prédio, no entanto, é controverso entre os amantes da arquitetura: sua fachada de concreto é frequentemente descrita como "brutalista" e "sem charme", especialmente em comparação com a elegância _belle époque_ dos edifícios vizinhos. Mas ninguém pode negar sua funcionalidade: o palácio pode receber simultaneamente 30.000 profissionais do cinema durante o festival, com infraestrutura de ponta para projeção, som e tradução simultânea.

Uma curiosidade que poucos turistas conhecem: o antigo Palais Croisette (1952-1982) foi demolido em 1988 para dar lugar a um conjunto de hotéis de luxo e lojas de grife — incluindo o Hotel JW Marriott Cannes. Uma placa na fachada do hotel marca o local exato onde a primeira Palma de Ouro foi entregue em 1955, uma homenagem discreta ao prédio que viu nascer a lenda do festival.

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Capítulo

2. A Palma de Ouro e os Anos Dourados: Como Cannes Criou o Maior Prêmio do Cinema Mundial

2.1 A Criação da Palma de Ouro (1955): Como um Galho de Palmeira Virou o Prêmio Mais Cobiçado do Cinema

Nos primeiros anos do Festival de Cannes (1946-1954), o prêmio máximo era o Grand Prix du Festival International du Film — mas ele não tinha um formato fixo. Cada ano, o troféu era redesenhado por um artista contemporâneo diferente: ora uma estatueta, ora um objeto simbólico, ora uma simples placa comemorativa. Faltava ao festival um símbolo unificador, uma imagem que representasse Cannes no imaginário mundial.

Em 1954, o então Delegado Geral do festival, Robert Favre Le Bret, decidiu mudar isso. O conselho diretor convidou vários joalheiros para apresentar desenhos de uma palma — em homenagem ao brasão da cidade de Cannes, que desde a Idade Média ostenta uma palmeira como símbolo heráldico. A palma também evocava a lenda de São Honorato (Saint Honorat), o eremita que, segundo a tradição, subiu em uma palmeira na Ilha de Lérins para invocar o mar e livrar a ilha das serpentes que a infestavam.

O desenho vencedor foi o da joalheira parisiense Lucienne Lazon, inspirado por um esboço do diretor Jean Cocteau (então presidente do júri do festival). O design original tinha uma haste biselada na extremidade inferior formando um coração, e o pedestal era uma escultura em terracota do artista Sébastien. A palma era feita de ouro maciço, com 19 folhas estilizadas, pesando 118 gramas de ouro 18 quilates.

Em 26 de abril de 1955, durante a 8ª edição do Festival de Cannes, a primeira Palma de Ouro (Palme d'Or) da história foi entregue ao diretor americano Delbert Mann por seu filme "Marty" (protagonizado por Ernest Borgnine), um drama sensível sobre um açougueiro solitário do Bronx em busca do amor. _Marty_ também venceu o Oscar de Melhor Filme naquele ano — um raro duplo reconhecimento que estabeleceu imediatamente o prestígio da nova premiação.

A Palma de Ouro, no entanto, não foi um sucesso imediato de público. Muitos críticos reclamaram que o design era "muito simples" ou "parecia um enfeite de Natal". Em 1964, o festival voltou temporariamente ao Grand Prix, abandonando a palma. Foi só em 1975 que a Palma de Ouro foi reintroduzida definitivamente, tornando-se o símbolo perene do festival. Desde então, o design passou por várias reformulações: o pedestal arredondado tornou-se piramidal em 1984; em 1992, Thierry de Bourqueney redesenhou a palma com pedestal de cristal lapidado à mão; e em 1997, a joalheria suíça Chopard, sob a direção de Caroline Scheufele, assumiu a produção com um design contemporâneo que inclui um coração sutil na base da haste — uma homenagem ao logotipo da maison.

Cada Palma de Ouro hoje exige 40 horas de trabalho artesanal, envolvendo cinco ourives especializados da Chopard em Genebra. Duas cópias são produzidas por ano: uma para o vencedor, outra mantida como reserva (em caso de empate, roubo ou imprevisto). Nenhuma Palma de Ouro é idêntica à outra — cada uma é inteiramente feita à mão, um detalhe que reforça a exclusividade do prêmio.

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2.2 Os Anos de Ouro: Brigitte Bardot, Grace Kelly e a Invenção do Glamour

A década de 1950 foi o período em que Cannes se transformou de um festival de cinema em um fenômeno cultural mundial. Se hoje o festival é sinônimo de tapete vermelho, vestidos de grife e poses para os fotógrafos, foi nos anos 1950 que esse ritual foi inventado — e três mulheres foram as protagonistas dessa transformação.

Brigitte Bardot foi a primeira estrela a entender o poder da imagem fora da sala de exibição. Em 1953, aos 19 anos, ela apareceu em Cannes não para um filme na competição, mas para promover "Manina, a Garota sem Véu" (Manina, la fille sans voiles) . Durante o festival, Bardot foi fotografada na praia da Croisette usando um biquíni floral — uma peça considerada tão escandalosa na época que ela precisou ser escoltada de volta ao hotel por segurança. As fotos correram o mundo, e Bardot se tornou a primeira "it girl" de Cannes sem jamais ter subido no tapete vermelho. Em 1955, ela retornou para o lançamento de "E Deus Criou a Mulher" (Roger Vadim), um filme que consolidou sua imagem de musa sexual e liberdade feminina. Simone de Beauvoir escreveria mais tarde: "Um santo venderia sua alma para ver Bardot dançar."

Grace Kelly trouxe o oposto do glamour escandaloso de Bardot: a elegância aristocrática. Em 1955, a atriz americana chegou a Cannes para promover "O Cisne" e "A Angústia de um Amor". Durante o festival, ela conheceu o Príncipe Rainier III de Mônaco em um encontro promovido pela revista _Paris Match_ no Palais des Festivals. O romance foi imediatamente selado pela imprensa, e Grace Kelly se tornou princesa em 1956 — uma história de conto de fadas que Cannes reivindica como sua. Sua última aparição no festival como atriz solteira foi naquele mesmo ano de 1955, quando posou para as câmeras com um vestido de tafetá branco e luvas de ópera, criando o modelo de elegância que todas as atrizes tentariam imitar nas décadas seguintes.

Marilyn Monroe também marcou presença em 1955, desembarcando em Cannes para a estreia de "O Pecado Mora ao Lado" (The Seven Year Itch) . Ela usou um vestido de cetim branco, estola de pele e luvas até os cotovelos — uma imagem que se tornou um dos ícones fotográficos do século XX. Diferentemente de Bardot (que usava o festival como trampolim) e Kelly (que buscava refinamento), Monroe tratou Cannes como um palco global, provando que o festival já era, em meados dos anos 1950, a vitrine mais poderosa do mundo para o cinema e para a celebridade.

Sophia Loren fez sua primeira aparição em Cannes em 1955, aos 20 anos, e ficou impressionada com a recepção: "O público me aplaudia na rua como se eu fosse uma atriz importantíssima", lembrou mais tarde. Sua imagem de _dolce vita_ italiana encontrou em Cannes um segundo lar, e ela retornaria inúmeras vezes, incluindo em 1961 com "A Pantera Cor de Rosa" e em 1992 quando recebeu a Palma de Ouro Honorária.

O glamour dos anos 1950 estabeleceu um padrão que Cannes mantém até hoje: o festival não é apenas sobre os filmes, mas sobre o espetáculo da presença. As fotos de Bardot na praia, Kelly no cassino, Monroe na escadaria — essas imagens criaram o DNA visual do festival. A Croisette deixou de ser apenas uma avenida beira-mar para se tornar a passarela onde o cinema e a alta sociedade se encontram, todos os anos, em maio.

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2.3 O Primeiro Cinema que Mudou Cannes: Nouvelle Vague, Fellini e o Cinema Novo

Enquanto o glamour tomava conta da Croisette, dentro das salas de projeção uma revolução cinematográfica estava em curso. Os anos 1950 e 1960 foram o período em que Cannes deixou de ser um festival de exibição internacional para se tornar o termômetro das grandes transformações do cinema mundial.

A Nouvelle Vague francesa explodiu em Cannes em 1959, quando François Truffaut apresentou "Os Incompreendidos" (Les Quatre Cents Coups) na competição oficial. O filme — uma história semi-autobiográfica sobre um garoto rebelde em Paris — ganhou o prêmio de Melhor Diretor, e Truffaut, que havia sido crítico da revista _Cahiers du Cinéma_ e feroz crítico do festival, tornou-se seu novo herói. No mesmo ano, Alain Resnais apresentou "Hiroshima, Meu Amor", que expandiu ainda mais os limites formais do cinema com sua narrativa não-linear e edição ousada. Cannes havia abraçado a modernidade.

Em 1960, Federico Fellini levou a Palma de Ouro com "A Doce Vida" (La Dolce Vita) , um retrato corrosivo da alta sociedade romana que se tornou um fenômeno cultural global. Foi em Cannes que Marcello Mastroianni e Anita Ekberg se tornaram ícones mundiais. A cena de Ekberg dentro da Fonte de Trevi é inseparável do imaginário do festival — embora tenha sido filmada em Roma, foi em Cannes que o filme ganhou vida e status de obra-prima.

Michelangelo Antonioni levou o prêmio especial do júri em 1960 com "A Aventura" (L'Avventura) , um filme que dividiu o público: vaias ensurdecedoras na primeira exibição, seguidas de uma aclamação histórica nos dias seguintes. Esse incidente entrou para a lenda de Cannes como o exemplo máximo de como o festival pode mudar a percepção de um filme — e como o público de Cannes, mesmo quando hostil, faz parte da história do cinema.

Em 1966, Claude Lelouch levou a Palma de Ouro com "Um Homem, uma Mulher" (Un Homme et une Femme) , um filme francês intimista que conquistou o público internacional e provou que Cannes não premiava apenas o cinema de arte europeu, mas também histórias universais de amor e perda. No mesmo ano, Michelangelo Antonioni apresentou "Blow-Up", que ganhou a Palma de Ouro, consolidando a parceria entre Cannes e o cinema de autor.

O Cinema Novo brasileiro também marcou presença. Glauber Rocha apresentou "Deus e o Diabo na Terra do Sol" em 1964 e "Terra em Transe" em 1967, levando a estética do cinema marginal brasileiro para o centro do debate cinematográfico mundial. Em 1969, "O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro" rendeu a Glauber o prêmio de Melhor Diretor.

Foi também nesse período que Cannes começou a premiar diretores que mais tarde se tornariam lendas. Akira Kurosawa ganhou o Grand Prix em 1951 com "Rashomon" (que também apresentou o cinema japonês ao Ocidente). Luis Buñuel levou a Palma de Ouro em 1961 com "Viridiana" (um dos filmes mais controversos da história do festival). Henri-Georges Clouzot chocou o público em 1953 com "O Salário do Medo".

Cannes, nos anos 1960, já não era apenas um festival — era o campo de batalha estético do cinema mundial. Cada edição trazia uma nova polêmica, uma nova descoberta, um novo diretor que mudaria a linguagem cinematográfica. A Palma de Ouro, que começara como uma aposta duvidosa em 1955, tornara-se o prêmio que todos os grandes diretores do mundo queriam conquistar.

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Capítulo

3. Política e Escândalos: Quando Cannes Virou Palco de Batalhas Mundiais

3.1 Maio de 1968: O Festival que Foi Interrompido por Estudantes e Trabalhadores

Em 10 de maio de 1968, a 21ª edição do Festival de Cannes abriu com pompa e circunstância. Grace Kelly (então Princesa de Mônaco) presidiu a cerimônia de abertura, e a noite começou com uma exibição da versão restaurada de "...E o Vento Levou" (Gone with the Wind) em 70mm. Havia champanhe, vestidos de gala, celebridades — o ritual de sempre. Mas a poucas centenas de quilômetros dali, Paris estava em chamas.

Na noite de 10 para 11 de maio, o Quartier Latin foi palco da "Noite das Barricadas": 30 mil estudantes enfrentaram a polícia em violentos confrontos, com carros queimados, centenas de feridos e 461 prisões. O que começara como uma greve estudantil por melhores condições nas universidades havia se transformado em uma crise nacional, com 11 milhões de trabalhadores em greve geral paralisando a França.

O contraste entre o glamour da Croisette e a revolta nas ruas de Paris tornou-se insustentável. No dia 13 de maio, a Associação de Críticos Franceses emitiu uma nota pedindo a suspensão do festival em solidariedade aos estudantes. A direção do festival recusou. Então, no dia 17 de maio, após a exibição do documentário irlandês "Rocky Road to Dublin" (Peter Lennon), Jean-Luc Godard e Claude Lelouch subiram ao palco e anunciaram que o festival deveria ser encerrado.

Godard foi direto: "Estamos falando de solidariedade com estudantes e trabalhadores, e vocês estão falando de travelling e close-ups." A frase tornou-se um dos momentos mais icônicos da história cultural francesa. No dia seguinte, 18 de maio, quando o filme espanhol "Peppermint Frappé" (Carlos Saura) estava prestes a ser exibido, Saura subiu ao palco e agarrou as cortinas para impedir que a tela se abrisse. Uma briga generalizada explodiu na plateia — pró e contra o cancelamento.

François Truffaut, que estava na plateia, enfrentou a multidão furiosa que queria assistir ao filme. Em um momento de tensão máxima, ele subiu em uma cadeira e gritou: "Vocês vão assistir a um filme enquanto Paris está pegando fogo?" Muitos diretores retiraram seus filmes da competição — Alain Resnais, Miloš Forman, Carlos Saura, entre outros — e membros do júri renunciaram.

Em 19 de maio, cinco dias antes do encerramento programado, o festival foi oficialmente cancelado — a primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial que Cannes não premiava nenhum filme. Nenhuma Palma de Ouro foi entregue em 1968. A edição entrou para a história como o momento em que a política invadiu o cinema de forma mais dramática, lembrando a todos que Cannes, por mais glamourosa que fosse, não podia se isolar do mundo.

O legado de 1968 foi a criação da Quinzena dos Realizadores (Quinzaine des Réalisateurs) em 1969, uma mostra paralela criada pela Sociedade dos Realizadores Franceses (SRF) para exibir filmes independentes e politicamente engajados, sem a mediação da seleção oficial. Até hoje, a Quinzena é um dos espaços mais inovadores e ousados do festival.

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3.2 A Era dos Grandes Escândalos Políticos: Godard, Curdistão e o Boicote Americano

A partir dos anos 1970, Cannes tornou-se o palco preferido para o cinema de denúncia política, atraindo tanto aplausos quanto vaias ensurdecedoras.

Em 1972, o diretor italiano Francesco Rosi apresentou "O Caso Mattei", sobre a misteriosa morte do industrial Enrico Mattei em um acidente de avião na Sicília em 1962. O filme ganhou a Palma de Ouro, consolidando Cannes como um festival disposto a premiar filmes que investigavam o poder e a corrupção. No mesmo ano, o americano Jerry Schatzberg dividiu a Palma com "O Espantalho", um retrato melancólico da América pós-60.

Os anos 1980 viram Cannes se tornar um fórum de debate sobre a América Latina. Em 1985, o diretor argentino Luis Puenzo levou o prêmio do júri por "A História Oficial", o primeiro filme a abordar abertamente os desaparecimentos forçados durante a ditadura militar argentina (1976-1983). Em 1987, "O Último Rei" (Maurice Pialat) dividiu opiniões, mas foi "Terra Estrangeira" e o cinema brasileiro de Walter Salles que ganharam destaque nos anos 1990.

Em 1997, Abbas Kiarostami (Irã) e Shohei Imamura (Japão) dividiram a Palma de Ouro — um símbolo da internacionalização do prêmio. No mesmo ano, o festival exibiu "O Gosto da Cereja" de Kiarostami, um filme sobre suicídio que foi aprovado pela censura iraniana mas gerou debates acalorados sobre os limites da arte em regimes autoritários.

O ano de 2004 marcou um dos momentos mais abertamente políticos da história do festival: a Palma de Ouro foi entregue ao documentário "Fahrenheit 9/11" de Michael Moore, uma crítica feroz à presidência de George W. Bush, à Guerra do Iraque e às conexões entre as famílias Bush e Bin Laden. O júri, presidido por Quentin Tarantino, escolheu o filme em meio a enorme controvérsia — a Casa Branca tentou bloquear o lançamento do filme nos Estados Unidos, e o governo saudita teria pressionado o festival para não premiá-lo.

O documentário foi o primeiro desde "O Mundo do Silêncio" (Jacques Cousteau e Louis Malle, 1956) a vencer a Palma de Ouro. Moore, em seu discurso, disse: "Dedico este prêmio a todos aqueles que acreditam que a verdade pode mudar o mundo." A premiação foi amplamente interpretada como uma declaração política da França contra a guerra americana no Iraque.

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3.3 Cannes e a Censura: Filmes Proibidos, Julgamentos e Liberdade de Expressão

A relação de Cannes com a censura é paradoxal. Fundado como reação à censura fascista em Veneza, o festival sempre se orgulhou de ser um espaço de liberdade — mas, na prática, enfrentou inúmeros casos de censura, boicotes e pressões políticas.

Um dos casos mais famosos foi o do filme "Viridiana" (1961) de Luis Buñuel. O filme, que dividiu a Palma de Ouro naquele ano, retratava uma noviça tentando ajudar os pobres e era considerado blasfemo pela Igreja Católica. O governo franquista da Espanha, que havia aprovado o roteiro sem ler o resultado final, proibiu o filme na Espanha e tentou impedir sua exibição em Cannes. O _Vaticano_ condenou publicamente o filme. Apesar da pressão, o júri de Cannes manteve a premiação, e "Viridiana" tornou-se uma das obras mais emblemáticas do festival.

Em 1973, o festival exibiu "O Último Tango em Paris" de Bernardo Bertolucci, que gerou escândalo mundial por suas cenas de sexo explícito. O filme foi banido em vários países (inclusive no Brasil durante a ditadura militar) e tornou-se um símbolo da luta pela liberdade artística. Cannes, ao exibi-lo, reafirmou seu compromisso com a exibição sem cortes.

Em 1994, "Pulp Fiction" de Quentin Tarantino venceu a Palma de Ouro em meio a controvérsias sobre sua violência. Críticos conservadores acusaram o festival de glamorizar a brutalidade, mas a premiação foi amplamente celebrada como um marco do cinema independente americano.

A chamada "guerra dos selfies" em 2015 — quando o Delegado Geral Thierry Frémaux proibiu selfies no tapete vermelho — foi uma forma leve de censura, mas revelou a tensão entre a tradição do festival e a cultura digital. Muito mais sério foi o caso Netflix em 2017: o festival selecionou dois filmes da plataforma ("Okja" e "The Meyerowitz Stories") para a competição oficial, mas a indústria cinematográfica francesa reagiu furiosamente, alegando que os filmes não cumpriam a janela de exibição nos cinemas. Em 2018, Cannes baniu filmes da Netflix da competição oficial, uma decisão que permanece até hoje.

Desde 2025, o festival implementou novas regras que proíbem nudez e vestidos volumosos no tapete vermelho, gerando críticas de que Cannes estaria se rendendo a uma "censura moral" que contradiz sua história de liberdade.

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3.4 O Festival Que Virou Palanque: De "Fahrenheit 9/11" a "O Que Nós Vemos"

Os anos 2000 e 2010 consolidaram Cannes como o maior palco político mundial do cinema. A cada edição, o festival se tornava o local onde diretores, atores e ativistas usavam o tapete vermelho para fazer declarações políticas.

Em 2009, Marco Bellocchio venceu o prêmio do júri com "Vincere", sobre a primeira esposa de Mussolini. 2011 viu "A Árvore da Vida" de Terrence Malick levar a Palma, mas o momento político mais marcante foi a exibição de "Isto Não É um Filme" de Jafar Panahi — o diretor iraniano, preso em prisão domiciliar em Teerã e banido de fazer filmes por 20 anos, enviou o longa para Cannes escondido em um pen drive dentro de um bolo.

Em 2012, Michael Haneke venceu com "Amor", mas a grande controvérsia política foi "A Caça" (Thomas Vinterberg), que abordava a histeria coletiva em torno de falsas acusações de abuso sexual. Em 2016, a Palma de Ouro foi para "Eu, Daniel Blake" de Ken Loach, uma crítica contundente ao sistema de previdência social britânico. Loach, um veterano do cinema político, usou seu discurso para atacar a austeridade do governo conservador: "Este prêmio é para todos aqueles que resistem à crueldade do sistema."

Em 2018, 82 mulheres lideradas por Cate Blanchett — então presidente do júri — fizeram uma manifestação silenciosa no tapete vermelho para protestar contra a falta de representação feminina na história do festival. De 82 filmes premiados na competição oficial até então, apenas 12 haviam sido dirigidos por mulheres. Blanchett declarou: "Estamos aqui para celebrar as mulheres que trabalham nesta indústria, e para dizer que estamos juntas."

Em 2019, "Parasita" de Bong Joon-ho venceu a Palma de Ouro e tornou-se o primeiro filme coreano a ganhar o prêmio. Embora menos explicitamente político do que outros vencedores, "Parasita" era uma afiada crítica de classe — e sua vitória foi aclamada como uma prova de que Cannes continuava atenta às tensões sociais do mundo contemporâneo.

Em 2022, o festival negou o tapete vermelho a autoridades iranianas em solidariedade ao movimento "Mulher, Vida, Liberdade", desencadeado pelo assassinato de Mahsa Amini pela polícia moral do Irã. Várias atrizes e diretoras desfilaram com mechas de cabelo à mostra, em desafio às leis islâmicas.

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3.5 O Caso Roman Polanski e o #MeToo: Cannes no Centro do Debate Global

Nenhum caso expôs as contradições de Cannes de forma mais aguda do que o de Roman Polanski. O diretor franco-polonês, foragido da Justiça americana desde 1978 após se declarar culpado de estupro de uma menor de 13 anos (Samantha Geimer), continuou sendo uma figura central em Cannes por décadas.

Polanski presidiu o júri do festival em 1991, quando sua gestão foi controversa: ele teria embriagado os outros jurados para forçar a vitória de "Barton Fink" dos irmãos Coen. Em 2002, seu filme "O Pianista" venceu a Palma de Ouro — o ápice de seu prestígio em Cannes, mas também o início de um debate público crescente sobre a legitimidade de premiar um homem condenado por estupro.

A tensão explodiu em 2017-2018, com o surgimento do movimento #MeToo após as denúncias contra Harvey Weinstein (que era presença constante em Cannes e usava o festival como palco para seus negócios). Em 2018, Polanski chamou o #MeToo de "histeria coletiva" em uma entrevista, gerando indignação mundial. Mesmo assim, ele continuou sendo convidado do festival.

Em 2023, a exibição de "O Palácio" de Polanski fora da competição gerou protestos de grupos feministas na entrada do Palais des Festivals. Em 2024, a atriz francesa Adèle Haenel — que havia denunciado abusos sofridos na infância nas mãos do diretor Christophe Ruggia — fez um discurso emocionado no festival criticando a impunidade na indústria cinematográfica francesa.

O ponto de virada veio em 2025. Em maio daquele ano, o festival proibiu pela primeira vez um ator francês de subir no tapete vermelho por estar sob investigação por estupro. No mesmo dia, o tribunal de Paris condenou Gérard Depardieu por agressão sexual — o primeiro grande nome do cinema francês a ser condenado desde o início do #MeToo. A presidente do júri, Juliette Binoche, disse que a condenação "nunca teria acontecido sem o movimento #MeToo". Cannes finalmente parecia estar levando a sério o debate sobre abuso sexual na indústria do cinema — uma discussão que, ironicamente, o próprio festival ajudou a abafar por décadas.

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Capítulo

4. Os Filmes e os Diretores que Marcaram Época em Cannes

4.1 Os Filmes que Marcaram Época: "La Dolce Vita", "Apocalypse Now", "Pulp Fiction"

A história da Palma de Ouro é a história do cinema mundial no século XX e XXI. Cada década teve seus filmes-símbolo — obras que, ao vencer Cannes, ganharam não apenas um prêmio, mas um selo de eternidade.

Anos 1960 — A Revolução Estética: "La Dolce Vita" (Federico Fellini, 1960) inaugurou a década com uma sátira mordaz da alta sociedade romana, transformando Marcello Mastroianni e Anita Ekberg em ícones mundiais. A cena de Ekberg na Fonte de Trevi é uma das imagens mais famosas do cinema. Dois anos depois, "O Pagador de Promessas" (Anselmo Duarte, 1962) deu ao Brasil sua única Palma de Ouro — até hoje um marco do cinema nacional. Em 1966, "Um Homem, uma Mulher" (Claude Lelouch) provou que Cannes também premiava o romance intimista, enquanto "Blow-Up" (Michelangelo Antonioni) no mesmo ano celebrou a estética do cinema moderno.

Anos 1970 — O Cinema Político e a Violência: A década foi dominada por filmes que questionavam o poder e a sociedade. "Taxi Driver" (Martin Scorsese, 1976) chocou o mundo com seu retrato brutal da solidão urbana e da violência — a icônica frase "You talkin' to me?" de Robert De Niro nasceu em Cannes. Em 1979, "Apocalypse Now" (Francis Ford Coppola) dividiu a Palma com "O Tambor" (Volker Schlöndorff) — ambos filmes sobre a guerra (a do Vietnã e a Segunda Guerra), mas de perspectivas radicalmente diferentes. Coppola quase enlouqueceu nas Filipinas durante as filmagens, e sua versão apresentada em Cannes era uma "work in progress" que eletrizou o público.

Anos 1980 — A Diversidade Geográfica: O palmarés se abriu para o mundo. "Kagemusha" (Akira Kurosawa, 1980) dividiu a Palma com "All That Jazz" (Bob Fosse). "Paris, Texas" (Wim Wenders, 1984) trouxe o cinema alemão para o topo, com a fotografia inesquecível de Robby Müller. "MISSING — O Desaparecido" (Costa-Gavras, 1982) expôs o envolvimento dos EUA no golpe no Chile. O diretor soviético Elem Klimov chocou com "Vá e Veja" (1985), um dos filmes mais brutais sobre a guerra já feitos.

Anos 1990 — O Triunfo do Cinema de Autor: A década começou com "Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer" e "Coração Selvagem" (David Lynch, 1990), que estabeleceu Lynch como o poeta do surrealismo americano. "Barton Fink" (Joel Coen, 1991) ganhou Palma, direção e atuação — um triplo prêmio que levou o festival a proibir que um filme ganhasse tantos troféus. "O Piano" (Jane Campion, 1993) fez história ao dar a primeira Palma a uma diretora mulher. "Pulp Fiction" (Quentin Tarantino, 1994) explodiu Cannes com sua narrativa não-linear e diálogos afiados — o júri, presidido por Clint Eastwood, não hesitou em premiar o que se tornaria o filme cult da década.

Anos 2000 — Documentário e Política: "Fahrenheit 9/11" (Michael Moore, 2004) foi o primeiro documentário em 48 anos a vencer. "O Filho" (Dardenne, 2005) e "Rosetta" (Dardenne, 1999) consolidaram o realismo social belga. "O Vento Que Sacode a Cevada" (Ken Loach, 2006) — sobre a guerra civil irlandesa — foi recebido com vaias em Cannes mas defendeu-se pelo prêmio máximo.

Anos 2010-2020 — A Nova Onda Global: "Amor" (Michael Haneke, 2012) provou que Cannes premiava o cinema sobre o envelhecimento com uma crueza inesquecível. "Parasita" (Bong Joon-ho, 2019) tornou-se o primeiro filme coreano a vencer a Palma — e meses depois, o primeiro filme de língua não-inglesa a vencer o Oscar de Melhor Filme. "Titane" (Julia Ducournau, 2021) chocou Cannes com sua mistura de body horror e drama familiar, dando a segunda Palma a uma diretora. "Anatomia de uma Queda" (Justine Triet, 2023) deu a terceira Palma a uma mulher.

Cada um desses filmes, à sua maneira, representa o que Cannes mais valoriza: coragem artística, risco narrativo e uma visão autoral inconfundível.

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4.2 Os Diretores que Cannes Consagrou: Fellini, Kurosawa, Lynch, Haneke, Dardenne

Cannes não apenas premia filmes — ela consagra carreiras. Alguns diretores construíram sua lenda nos corredores do Palais des Festivals, seja vencendo múltiplas vezes ou estabelecendo uma relação única com o festival.

Francis Ford Coppola venceu duas Palmas: "A Conversação" (1974) e "Apocalypse Now" (1979). Nenhum outro diretor americano conseguiu o bi-campeonato. Em 2024, aos 85 anos, Coppola apresentou "Megalopolis" fora da competição — uma obra que ele financiou com sua própria fortuna e que dividiu a crítica, provando que Cannes continua sendo o palco para os grandes gambles do cinema.

Akira Kurosawa levou a Palma com "Kagemusha" (1980), mas sua relação com Cannes começou em 1951, quando "Rashomon" ganhou o Grand Prix. Curiosamente, Kurosawa nunca venceu a Palma de Ouro no formato individual — dividiu o prêmio em 1980 com Bob Fosse.

David Lynch é um dos diretores mais associados a Cannes: venceu a Palma com "Coração Selvagem" (1990) e levou o prêmio de Melhor Diretor por "Mulholland Drive" (2001), além de ter presidido o júri em 2002.

Michael Haneke é um dos poucos diretores a vencer a Palma duas vezes: com "A Fita Branca" (2009) e "Amor" (2012). Seu cinema frio e clínico encontrou em Cannes seu público ideal.

Os Irmãos Dardenne (Jean-Pierre e Luc) representam o realismo social belga com duas Palmas: "Rosetta" (1999) e "O Filho" (2005). Eles são os favoritos absolutos do festival, que os consagrou como os mestres do cinema engajado europeu.

Ken Loach também tem duas Palmas: "O Vento Que Sacode a Cevada" (2006) e "Eu, Daniel Blake" (2016). Aos 88 anos, Loach continua sendo o grande nome do cinema de esquerda britânico.

Ruben Östlund venceu duas vezes em cinco anos: "The Square" (2017) — uma sátira ao mundo da arte contemporânea — e "Triângulo da Tristeza" (2022) — uma crítica feroz ao capitalismo e ao mundo da moda.

Cristian Mungiu venceu em 2007 com "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias" (sobre o aborto na Romênia comunista) e novamente em 2026 com "Fjord" — seu segundo prêmio veio quase 20 anos depois.

Há um dado curioso que poucos turistas sabem: Stanley Kubrick — um dos maiores diretores de todos os tempos — nunca ganhou a Palma de Ouro. Ele foi indicado apenas uma vez, com "Laranja Mecânica" (1971), mas perdeu. Cannes não é o Oscar: até os gênios precisam esperar sua vez.

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4.3 As Palmas que Nunca Deveriam Ter Sido Esquecidas: Mulheres, Estreantes e Estrangeiros

A história da Palma de Ouro também é a história do que não foi premiado — ou do que demorou demais para ser reconhecido.

Mulheres na Palma de Ouro: Em 2026, apenas quatro diretoras mulheres ganharam a Palma: Jane Campion (1993, "O Piano"), Julia Ducournau (2021, "Titane"), Justine Triet (2023, "Anatomia de uma Queda") e Bodil Ipsen (1946, co-vencedora do Grand Prix). Isso significa que, em mais de 75 edições, apenas quatro filmes dirigidos por mulheres ganharam o prêmio máximo. O abismo é ainda maior se considerarmos que Campion e Triet dividiram a Palma com outros filmes.

Estreantes que Chocaram Cannes: Alguns diretores ganharam a Palma logo em seu primeiro ou segundo filme. Delbert Mann venceu com "Marty" (1955) em sua estreia. Julia Ducournau venceu com seu segundo longa, "Titane" (2021). Sean Baker venceu em 2024 com "Anora" — uma trajetória de décadas no cinema independente coroada pelo prêmio máximo.

Estrangeiros e a Palma: Até os anos 1980, a Palma era quase um monopólio europeu-americano. A partir da década de 1990, o prêmio se globalizou: Chen Kaige (China, 1993), Abbas Kiarostami (Irã, 1997), Apichatpong Weerasethakul (Tailândia, 2010), Bong Joon-ho (Coreia do Sul, 2019) e Jafar Panahi (Irã, 2025). Cada um desses diretores representou a abertura de Cannes para cinematografias até então marginalizadas.

As Palmas Perdidas: Alguns filmes marcaram época mas não ganharam a Palma — como "Cidadão Kane" (Orson Welles, 1941 — o festival não existia), "O Poderoso Chefão" (1972 — perdeu para "O Caso Mattei") ou "2001 — Uma Odisseia no Espaço" (1968 — o festival foi cancelado). A ausência de algumas obras-primas no palmarés da Palma é um lembrete de que Cannes, como todo prêmio, é também um retrato imperfeito e subjetivo da história do cinema.

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Capítulo

5. O Ritual do Tapete Vermelho e os Segredos da Croisette

5.1 O Tapete Vermelho: A Escadaria Mais Famosa do Cinema

O Tapete Vermelho de Cannes não é apenas um pedaço de tecido — é um palco ritualizado onde o cinema, a moda e o poder se encontram. Desde 1983, quando o novo Palais des Festivals foi inaugurado com sua escadaria de 24 degraus, o ritual é o mesmo: os convidados descem de carros na Rue Dunant, sobem os degraus sob o olhar de centenas de fotógrafos e, no topo, viram-se para a multidão antes de entrar no Grand Théâtre Lumière.

O protocolo é rigoroso. Os convidados têm exatos 20 minutos para subir os degraus (o tempo cronometrado para que todos entrem antes do início da exibição). Os fotógrafos, posicionados em arquibancadas laterais, gritam os nomes das celebridades em várias línguas — "Madonna! Julia! Look here!" — na esperança de conseguir o clique perfeito.

Em 2015, o festival proibiu os selfies no tapete vermelho. O então Delegado Geral, Thierry Frémaux, chamou a prática de "ridícula e grotesca", argumentando que os selfies atrasavam o fluxo e banalizavam o ritual. A partir de 2018, o uso de smartphones foi totalmente banido. Hoje, os seguranças interceptam qualquer pessoa que tente tirar uma selfie, e os convidados são orientados a guardar os aparelhos antes de chegar à escadaria.

Em 2025, novas regras entraram em vigor: nudez proibida (vestidos transparentes ou que simulam nudez estão banidos), vestidos com cauda muito longa também foram restringidos, e sapatos devem ser "elegantes" — mas, finalmente, as mulheres foram autorizadas a usar sapatos sem salto, encerrando a polêmica do "heelsgate" que dominou o festival de 2015 a 2018.

O tapete vermelho de Cannes é também o mais cobiçado do cinema. Conseguir um convite para uma première no Grand Théâtre Lumière é o sonho de qualquer cinéfilo. Os convites são distribuídos pelos patrocinadores, pelos estúdios e pela organização do festival — e falsificá-los é crime na França.

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5.2 A Croisette e a Vida Noturna: Onde Turistas e Celebridades se Encontram

A Promenade de la Croisette é a espinha dorsal do festival — uma avenida beira-mar de 2,5 km que, durante os 12 dias do festival, se transforma em um cenário de cinema a céu aberto. De um lado, o mar azul-turquesa do Mediterrâneo; do outro, hotéis _belle époque_, lojas de grife e restaurantes estrelados.

Durante o festival, a Croisette é tomada por três tipos de público: os profissionais credenciados (correndo entre screenings e reuniões), as celebridades (escoltadas por seguranças entre hotéis e o Palais) e os turistas (de olho em um autógrafo ou uma selfie com uma estrela).

Os hotéis da Croisette são quase tão famosos quanto o festival. O Hotel Carlton (construído em 1911) é o mais icônico: foi lá que Alfred Hitchcock se hospedou enquanto filmava "Para Ladrão" (To Catch a Thief) com Grace Kelly e Cary Grant em 1954. O Hotel Martinez (art déco, 1929) é tradicionalmente a casa das estrelas americanas. O JW Marriott (que ocupa o local do antigo Palais Croisette) é onde a indústria faz negócios nos cafés da varanda.

A vida noturna de Cannes durante o festival é um ecossistema à parte. Os beach clubs — como o Baoli, o Gotha e o B — transformam-se em pistas de dança privadas onde as festas duram até o amanhecer. Os restaurantes estrelados como La Palme d'Or (no Hotel Martinez, duas estrelas Michelin) e Le Park 45 são pontos de encontro de estúdios para jantares de negócios.

Para o turista comum, ver uma celebridade de perto é questão de saber onde ir. O melhor lugar é Le Petit Majestic — um bar improvisado perto do Palais que se tornou o point dos profissionais da indústria para beber depois das exibições. Dizem que é mais fácil fechar um negócio de cinema no Petit Majestic do que no Marché du Film.

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5.3 As Regras Não-Escritas do Festival: Dress Code, Convites e Protocolos

Além das regras oficiais, Cannes tem um conjunto de regras não-escritas que todo frequentador experiente conhece.

Convites: Não é possível "comprar" ingressos para as exibições do festival. Os convites são distribuídos exclusivamente pelos organizadores, patrocinadores e estúdios. Existem três categorias: Cartão Profissional Crema (acesso completo a todas as exibições), Cartão Profissional Azul (acesso à competição oficial e a algumas mostras paralelas) e Convites Avulsos (distribuídos diariamente na fila de última hora). A famosa fila de devolução — onde convites não utilizados são redistribuídos — é a única chance de um mortal sem credencial assistir a um filme.

Dress Code: Para exibições noturnas no Grand Théâtre Lumière, o traje é gala obrigatório: smoking para homens, vestido longo para mulheres. Durante o dia, o código é "elegante casual" — mas nada de chinelos ou shorts. Sandálias só se forem "elegantes", como define o regulamento. Tênis são proibidos em qualquer horário dentro do Palais.

Pontualidade: Os portas se fecham quando o filme começa, sem exceção. Atrasados não entram — nem mesmo celebridades. Em 2011, Lars von Trier perdeu os primeiros minutos de sua própria coletiva de imprensa por estar preso no trânsito.

O Silêncio do Júri: Durante a competição, os jurados são proibidos de falar publicamente sobre os filmes. Eles se reúnem a portas fechadas após cada exibição. O presidente do júri faz um discurso na cerimônia de encerramento, mas nunca revela detalhes das deliberações.

O Beijo na Face: Na França, o cumprimento padrão entre conhecidos é o beijo duplo (um em cada bochecha). Celebridades que não seguem o protocolo são acusadas de frieza.

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5.4 O Marché du Film: O Lado Comercial que Move Bilhões

Enquanto o mundo assiste ao tapete vermelho, nos porões e pavilhões do Palais des Festivals acontece o Marché du Film — o maior mercado de cinema do mundo, responsável por movimentar mais de US$ 1 bilhão em negócios a cada edição.

Criado em 1959 por iniciativa de Émile Natan e Bertrand Bagge, com o patrocínio de André Malraux, o Marché du Film começou como uma feira modesta onde produtores alugavam quartos de hotel para exibir seus filmes para compradores. Hoje, é uma máquina de negócios que ocupa todos os espaços disponíveis do Palais des Festivals e se espalha por pavilhões temporários ao longo da Croisette.

Em números, o Marché du Film em 2026 recebeu mais de 15 mil profissionais de 140 países, com 4 mil filmes e projetos apresentados em 1.500 exibições. São 1.700 compradores certificados — profissionais que têm poder de compra comprovado pela indústria — e 600 empresas expositoras. O credenciamento custa a partir de €350 por pessoa.

Os negócios no Marché du Film são divididos em três categorias principais:

1. Venda de direitos de distribuição: O coração do mercado. Um filme finalizado é exibido para compradores internacionais que negociam os direitos de exibição em seus territórios (por exemplo, direitos para o Japão, streaming para a América Latina, TV para a Escandinávia).

2. Pré-venda (pre-sales): Filmes ainda em produção ou em desenvolvimento são vendidos para levantar financiamento. Um produtor pode vender os direitos de distribuição de um filme que ainda nem começou a ser filmado.

3. Co-produção: Produtores de diferentes países se associam para financiar um filme em conjunto, dividindo riscos e acessando incentivos fiscais de múltiplos territórios.

O país homenageado em 2026 foi o Japão, que viu um aumento de 50% na participação de empresas japonesas. Em 2025, o Brasil foi o país homenageado.

Para o turista, o Marché du Film é invisível — acontece em áreas restritas a profissionais. Mas seu impacto é sentido em cada esquina de Cannes: os hotéis lotados, os restaurantes cheios, o ar de negócio que domina a cidade.

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5.5 Cannes sem Convite: O Que Fazer Durante o Festival Sendo um Mortal

Nem todo mundo que vai a Cannes durante o festival está credenciado. Milhares de turistas visitam a cidade apenas para sentir a atmosfera — e há muito o que fazer mesmo sem um convite para o tapete vermelho.

1. Ver as estrelas de longe: O melhor lugar é a barreira em frente ao Palais des Festivals, onde os fãs se reúnem para ver as celebridades chegando. Chegue cedo (pelo menos 2 horas antes da première) e posicione-se perto das arquibancadas da imprensa. Leve uma câmera com zoom.

2. Assistir ao Cinema de la Plage: O festival projeta filmes gratuitos ao ar livre na Plage Macé (praia pública), todas as noites. A programação inclui clássicos e filmes do festival — e a experiência de assistir a um filme na areia, com o mar ao fundo, é inesquecível.

3. Explorar a Croisette: Mesmo sem credencial, caminhar pela Croisette durante o festival é uma atração em si. Os hotéis decoram suas fachadas, os carros de luxo desfilam, e o burburinho é constante. O Hotel Carlton é o melhor lugar para flagrar celebridades entrando e saindo.

4. Visitar a Rue d'Antibes: Paralela à Croisette, esta rua comercial tem lojas, restaurantes e cafés mais acessíveis — e é onde muitos profissionais da indústria almoçam entre as reuniões.

5. Participar de festas abertas: Muitas marcas e estúdios organizam eventos abertos ao público, especialmente nos beach clubs. Fique de olho nas redes sociais e em sites especializados para encontrar festas sem convite.

6. Fazer um bate-volta para as Ilhas de Lérins: A poucos minutos de barco de Cannes, as ilhas de Sainte-Marguerite e Saint-Honorat oferecem praias tranquilas e mosteiros históricos — um refúgio perfeito do caos do festival.

7. Visitar o Museu da Castre: No topo da colina Le Suquet (o bairro medieval de Cannes), o museu oferece uma vista panorâmica da cidade e do mar — e uma perspectiva única do festival visto de cima.

A regra de ouro para o turista em Cannes durante o festival é: não tente competir com o festival. Aceite que você não vai entrar no tapete vermelho, não vai sentar ao lado de Tarantino e provavelmente não vai ver a Palma de Ouro de perto. Em vez disso, aproveite o que Cannes tem de melhor: a atmosfera elétrica, os filmes ao ar livre, os cafés na Croisette e a sensação de estar no centro do mundo do cinema.

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Capítulo

6. Os Bastidores do Festival: Como Funciona a Máquina de Cannes

6.1 A Seleção Oficial: Como os Filmes São Escolhidos

Todos os anos, o Festival de Cannes recebe aproximadamente 16 mil filmes inscritos de todo o mundo. Destes, apenas 20 a 22 longas-metragens são selecionados para a Competição Oficial — uma taxa de aprovação inferior a 0,14%, tornando Cannes o festival mais seletivo do mundo.

O processo de seleção é conduzido pelo Comitê de Seleção, formado por 8 a 10 membros sob a liderança do Delegado Geral, Thierry Frémaux (no cargo desde 2007). O comitê se reúne semanalmente a partir do início do ano, assistindo a dezenas de filmes por sessão. Cada membro dá notas, e os filmes com melhor média avançam para a fase final.

Os critérios oficiais são vagos — Frémaux já disse que "um grande filme se reconhece nos primeiros 10 minutos" —, mas existem regras práticas. O filme deve ser inédito (não pode ter sido exibido em nenhum outro festival ou circuito comercial antes de Cannes). Deve ter formato de longa-metragem (mais de 60 minutos). E, a partir de 2018, não pode ser produzido pela Netflix (devido ao conflito com as janelas de exibição nos cinemas franceses).

Além da Competição Oficial, existem outras seções:

- Un Certain Regard: Criada em 1978, exibe filmes com "olhar original" — geralmente de diretores emergentes ou propostas mais experimentais.

- Fora de Competição: Filmes de grandes diretores que não disputam a Palma — como "Indiana Jones e o Mostrador do Destino" (2023) ou "Megalopolis" (2024).

- Sessões da Meia-Noite: Filmes de gênero (terror, ação) exibidos à meia-noite no Grand Théâtre Lumière.

- Cannes Première: Criada em 2021, para filmes de diretores consagrados que não estão na competição principal.

- Quinzena dos Realizadores: Seção paralela criada após 1968, organizada pela Sociedade dos Realizadores Franceses (SRF).

- Semana da Crítica: Seção paralela para primeiros e segundos filmes, criada em 1962 pelo Sindicato Francês da Crítica de Cinema.

A seleção é anunciada em meados de abril em uma coletiva de imprensa em Paris, transmitida ao vivo. O anúncio é um dos momentos mais aguardados do calendário cinematográfico — e as reações dos diretores não selecionados são, muitas vezes, tão noticiadas quanto a lista oficial.

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6.2 O Júri: Quem Decide a Palma de Ouro

O júri da Competição Oficial é formado por 9 membros (incluindo o presidente), escolhidos a dedo pela direção do festival. A composição busca equilibrar nacionalidades, gêneros e profissões — diretores, atores, roteiristas, produtores, compositores.

O presidente do júri é a figura central de cada edição. Tradicionalmente, é um diretor ou ator de prestígio internacional que já tenha relação com o festival. Alguns dos presidentes mais marcantes:

- Quentin Tarantino (2004) — presidiu o júri que deu a Palma a "Fahrenheit 9/11".

- Isabelle Adjani (1997) — única atriz francesa a presidir o júri.

- Robert De Niro (2011) — atuou como presidente no ano em que o festival celebrou seu 60º aniversário (na verdade, 64º, mas a contagem oficial inclui 1939).

- Cate Blanchett (2018) — liderou o protesto das 82 mulheres no tapete vermelho.

- Spike Lee (2021) — primeiro presidente negro da história do festival.

- Ruben Östlund (2023) — primeiro diretor a presidir o júri tendo ele mesmo duas Palmas.

- Greta Gerwig (2024) — primeira diretora americana a presidir o júri.

O júri se reúne todos os dias durante o festival para discutir os filmes exibidos. As deliberações são secretas, mas algumas regras são conhecidas: o presidente não vota, a menos que haja empate; cada membro vota secretamente, e o resultado é tabulado pela direção do festival.

Uma das regras mais curiosas foi criada após 1991, quando Roman Polanski (presidente do júri) pressionou os jurados a dar a Palma, Melhor Diretor e Melhor Ator para "Barton Fink" — um triplo prêmio que gerou tanta controvérsia que o festival criou a regra: nenhum filme pode ganhar mais de dois prêmios na competição oficial.

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6.3 A Cerimônia de Encerramento: Como a Palma É Entregue

A Cerimônia de Encerramento do Festival de Cannes é realizada no sábado à noite da segunda semana, no Grand Théâtre Lumière. É o momento mais aguardado do festival — quando a Palma de Ouro é finalmente entregue.

O ritual é preciso. O presidente do júri sobe ao palco e faz um breve discurso. Os prêmios são anunciados em ordem crescente de importância: Palma de Ouro de Curta-Metragem, Câmera de Ouro (melhor primeiro filme), Prêmio do Júri, Melhor Roteiro, Melhor Atriz, Melhor Ator, Melhor Diretor, Grand Prix e, finalmente, Palma de Ouro.

O clima é de tensão máxima. Os indicados sentam-se nas primeiras filas, e a transmissão ao vivo é vista por milhões de pessoas em todo o mundo. Quando o vencedor da Palma é anunciado, ele sobe os degraus do palco, recebe o troféu das mãos do presidente do júri e faz um discurso. A tradição manda que o discurso seja breve e em francês (embora muitos winners falem em inglês com uma frase em francês de cortesia).

Nos bastidores, a festa continua. O vencedor da Palma faz uma sessão de fotos oficial com o troféu — as imagens correm o mundo na manhã seguinte. Depois, há uma coletiva de imprensa e, mais tarde, a festa de encerramento — geralmente no Hotel Carlton ou em um beach club privado, onde a indústria celebra (ou lamenta) o resultado até o amanhecer.

Para quem fica em Cannes até o fim, a segunda-feira após a cerimônia é o dia da despedida: os estandes do Marché du Film são desmontados, os tapetes vermelhos são recolhidos, e a cidade volta à sua rotina de cidade turística do sul da França — até o ano seguinte.

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Capítulo

7. Cannes e os Outros Festivais: Como a Riviera se Compara

7.1 A Mostra de Veneza vs. Cannes: A Rivalidade que Criou o Cinema Festival

A rivalidade entre Cannes e Veneza é a mais antiga e mais emblemática da história do cinema. Tudo começou em 1938, quando a 6ª Mostra de Veneza — o primeiro festival de cinema do mundo, fundado em 1932 — foi dominada pela propaganda fascista. Sob pressão de Hitler e Mussolini, o júri mudou os resultados de última hora para premiar filmes alemães e italianos.

Foi essa traição à liberdade artística que levou Philippe Erlanger a criar Cannes. Desde o início, Cannes se apresentou como o festival "livre" — sem interferência política, sem censura estatal — em contraste direto com Veneza, que era controlada pelo regime fascista italiano.

Depois da Segunda Guerra Mundial, a competição entre os dois festivais se intensificou. Cannes, que havia nascido da revolta contra Veneza, precisava provar que era superior. A escolha das datas foi estratégica: Cannes passou a ocorrer em abril/maio, enquanto Veneza continuou em agosto/setembro, permitindo que os mesmos filmes pudessem ser exibidos em ambos.

Ao longo das décadas, as diferenças se acentuaram. Veneza é vista como mais intelectual e experimental — seu prêmio máximo, o Leão de Ouro, costuma premiar filmes mais radicais. Cannes é mais glamourosa e midiática — a Palma de Ouro é o prêmio mais desejado do cinema mundial, e o festival atrai muito mais atenção da mídia.

Hoje, os dois festivais mantêm uma rivalidade cordial. Muitos diretores participam de ambos no mesmo ano (como Alfonso Cuarón, que levou o Leão em 2018 com "Roma" e já havia ganho a Palma em 2013). Mas a disputa indireta continua: Veneza se orgulha de ter descoberto diretores como Andrei Tarkovsky e Wong Kar-wai, enquanto Cannes reivindica Fellini, Kurosawa e Tarantino.

Para o turista, a diferença prática é clara: Veneza é mais íntima e menos comercial; Cannes é mais espetacular e mais acessível ao público. Ambos, porém, oferecem uma experiência cinematográfica única em cenários deslumbrantes.

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7.2 Berlim, Cannes, Veneza: Como Cannes se Diferencia

Os três grandes festivais de cinema europeus — Berlim (fevereiro), Cannes (maio) e Veneza (agosto/setembro) — formam o chamado "Grand Slam" do cinema mundial. Cada um tem sua personalidade distinta.

Berlim (Berlinale): Fundado em 1951 pelas potências ocidentais no pós-guerra, a Berlinale é o mais político dos três festivais. Seu prêmio máximo, o Urso de Ouro, frequentemente premia filmes de denúncia social e engajamento político. Em 2025, o vencedor foi um documentário sobre refugiados sírios. Berlim é conhecida por seu público numeroso (mais de 300 mil ingressos vendidos ao público) e por sua atmosfera menos glamourosa — é o festival mais acessível e menos elitista.

Veneza (Mostra): Fundado em 1932 (o mais antigo), é o mais artístico e experimental. Sua localização no Lido — uma ilha próxima a Veneza — cria uma atmosfera de isolamento e concentração intelectual. O Leão de Ouro costuma premiar filmes ousados e de autor. Veneza também é a porta de entrada para a temporada de prêmios — muitos vencedores do Leão (como "Nomadland", "A Forma da Água") foram para o Oscar.

Cannes: Fundado em 1946 (embora reivindique 1939), Cannes é o mais prestigioso, glamouroso e midiático. É o único onde o tapete vermelho é um evento global, onde a moda compete com o cinema e onde os negócios do Marché du Film movimentam bilhões. Cannes é também o mais seletivo — a taxa de aceitação é a menor do mundo.

Para o diretor, vencer em Cannes é o auge do prestígio artístico; vencer em Veneza é uma declaração de vanguarda; vencer em Berlim é um ato político. Juntos, os três formam a tríade que define o cinema de qualidade no mundo.

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7.3 Os Outros Festivais Franceses: Deauville, Annecy, Angoulême

A França é o país com o maior número de festivais de cinema do mundo — mais de 500 eventos por ano. Além de Cannes, três se destacam:

Festival de Deauville (American Film Festival): Criado em 1975, em Deauville (Normandia), é dedicado exclusivamente ao cinema americano. Diferentemente de Cannes, que seleciona filmes do mundo todo, Deauville foca nos EUA — dando uma vitrine para filmes independentes americanos que muitas vezes não encontram espaço em Cannes. O festival acontece em setembro, no elegante balneário normando, e é famoso por seu ambiente mais descontraído.

Festival de Annecy (Animated Film Festival): Criado em 1960, é o maior festival de animação do mundo. Acontece em junho em Annecy (Alpes Franceses), em torno do lago mais famoso da França. O festival atrai estúdios como Disney, Pixar, Studio Ghibli e DreamWorks, e exibe centenas de curtas e longas de animação. Em 2025, recebeu mais de 12 mil profissionais.

Festival de Angoulême (Francophone Film Festival): Criado em 2008, em Angoulême (Nouvelle-Aquitaine), é o festival do cinema francófono. Diferentemente de Cannes (que é internacional), Angoulême celebra o cinema em língua francesa — da França, Bélgica, Suíça, Canadá, África francófona. Acontece em agosto e é famoso por seu ambiente acolhedor e por homenagear atores e diretores franceses.

Para o turista, cada festival oferece uma experiência diferente: Cannes é o espetáculo, Deauville é a elegância normanda, Annecy é a magia da animação, Angoulême é a intimidade do cinema francês.

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7.4 Cannes vs. Oscar: Por que a Palma é Mais Prestigiosa que a Estatueta (para os Franceses)

A comparação entre a Palma de Ouro e o Oscar é inevitável — e, para os franceses, a Palma vence em quase todos os quesitos de prestígio.

O Oscar é um prêmio da indústria — concedido por 9 mil membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. É um prêmio comercial e democrático: qualquer filme pode concorrer, e os vencedores são determinados pelo voto de pares.

A Palma de Ouro é um prêmio artístico — concedido por um júri de 9 pessoas escolhidas a dedo. Cannes não aceita inscrições espontâneas: o comitê de seleção escolhe os filmes que entram na competição. O resultado é um prêmio mais imprevisível, mais autoral e menos influenciado por campanhas de marketing.

Na prática, as diferenças são gritantes:

- Filmes de super-herói: Nunca venceram a Palma. Vários venceram o Oscar (incluindo "Pantera Negra" e "Homem-Aranha: Através do Aranhaverso" em categorias técnicas).

- Documentários: Apenas 2 venceram a Palma ("O Mundo do Silêncio" em 1956 e "Fahrenheit 9/11" em 2004). No Oscar, documentários têm uma categoria própria e vencem todos os anos.

- Filmes de língua não-inglesa: Dominam a Palma (mais da metade dos vencedores desde 2000). No Oscar, apenas 3 filmes de língua não-inglesa venceram Melhor Filme em 96 anos.

Para os franceses, a Palma é superior porque premia o cinema como arte, não como produto. O Oscar é visto como um prêmio da indústria americana — "muito local", como disse Bong Joon-ho em 2019. A Palma é global, imprevisível e, acima de tudo, livre — exatamente como Cannes foi concebida.

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Capítulo

8. Cannes Para o Turista: O Que Fazer Fora do Festival

8.1 A Croisette Além do Festival: Passeios, Praias e Luxo no Dia a Dia

A Promenade de la Croisette não existe apenas para o festival. Durante os outros 11 meses do ano, é um dos passeios mais elegantes do sul da França, comparável ao Paseo de la Concha em San Sebastián ou à Promenade des Anglais em Nice.

O calçadão tem 2,5 km de extensão, do Palais des Festivals até o Palm Beach Casino (na ponta leste). Ao longo do percurso, o visitante encontra:

- Praias privadas: Grande parte da orla de Cannes é ocupada por praias privadas (payantes), como a Plage du Martinez, Plage du Carlton e Plage Goéland. O acesso custa entre €20 e €40 por dia (incluindo espreguiçadeira, guarda-sol e serviço de bar). Para quem prefere praia pública, a melhor opção é a Plage Macé (perto do Palais) e a Plage du Midi (no extremo oeste).

- Lojas de luxo: A Croisette concentra as principais grifes internacionais: Chanel, Louis Vuitton, Dior, Gucci, Prada, Cartier, Rolex, Bulgari. Para compras mais acessíveis, a Rue d'Antibes (paralela à Croisette) tem marcas como Zara, Mango e Sephora.

- Hotéis históricos: O Hotel Carlton (1911) e o Hotel Martinez (1929) são monumentos arquitetônicos. Vale entrar no saguão de cada um para ver a decoração _belle époque_ — mesmo sem se hospedar. O Martinez tem um bar no terraço com vista para o mar que é um dos melhores lugares para um drinque ao pôr do sol.

- Passeio de barco: Do Vieux Port (porto velho), saem barcos para as Ilhas de Lérins (20 minutos de travessia), para Saint-Tropez (1 hora) e para Mônaco (1 hora). O passeio para as ilhas é o mais recomendado para quem tem pouco tempo.

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8.2 Onde Comer em Cannes: Da Alta Gastronomia ao Niçoise

Cannes oferece desde restaurantes com duas estrelas Michelin até modestos mercados de rua. A cozinha local é a cozinha provençal com influências da Côte d'Azur — frutos do mar, azeite de oliva, ervas aromáticas, legumes frescos.

Alta Gastronomia:

- La Palme d'Or (Hotel Martinez, 2 estrelas Michelin) — considerado o melhor restaurante de Cannes. Cozinha mediterrânea contemporânea do chef Christian Sinicropi. Pratos a partir de €120.

- Restaurant Le Park 45 — cozinha francesa clássica com vista para o parque. Pratos a partir de €80.

- La Villa Archange (1 estrela Michelin) — cozinha provençal moderna do chef Bruno Oger. Pratos a partir de €70.

Cozinha Tradicional (Bistrôs e Brasseries):

- Le Bistrot de la Mer — frutos do mar frescos na Croisette. Pratos a partir de €35.

- Chez Astoux & Brun — a mais famosa casa de frutos do mar de Cannes, na Rue Félix Faure. Especialidade em mariscos frescos e bouillabaisse.

- La Table du Chef — culinária provençal tradicional no bairro do Suquet.

Comida de Rua e Mercados:

- Marché Forville — o mercado municipal coberto de Cannes (aberto de manhã, exceto segundas-feiras). Frutas, legumes, queijos, azeitonas, pães artesanais. Funciona como mercado de pulgas aos domingos.

- Socca — a clássica panqueca de grão-de-bico da Côte d'Azur. Experimente na Chez Tintin, no Vieux Port.

- Pan Bagnat — o sanduíche niçoise (pão redondo com salada niçoise, atum, ovos, azeitonas). Ideal para um almoço rápido na praia.

Vinhos: Cannes está na região de Côtes de Provence, conhecida por seus vinhos rosés refrescantes. Para provar vinhos locais, vá ao Bar à Vin Le Canon (Rue du Dr Monod) ou ao Cave du Palais (Rue du Maréchal Foch).

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8.3 O Suquet e a Cannes Antiga: Um Passeio pela História

A Cannes que o turista vê — a Croisette, os hotéis de luxo, o Palais — é relativamente recente (do final do século XIX em diante). A Cannes antiga fica no topo da colina do Suquet (Le Suquet), o bairro medieval que deu origem à cidade.

O Suquet é um labirinto de ruas estreitas de paralelepípedos, casas de pedra com persianas coloridas e pequenos restaurantes familiares. Lá estão os pontos históricos mais importantes:

- Tour du Mont Chevalier: Uma torre de vigia do século XI, construída pelos monges da Abadia de Lérins para proteger a costa dos ataques sarracenos. Do alto, a vista panorâmica de Cannes, do mar e das Ilhas de Lérins é a melhor da cidade.

- Église Notre-Dame de l'Espérance: Igreja construída entre os séculos XVI e XVII, em estilo gótico provençal. Seu interior abriga um órgão do século XVIII e vitrais que retratam a história de Cannes.

- Musée de la Castre: Instalado em um castelo do século XII (que também abrigou os monges de Lérins), o museu exibe coleções de arte primitiva, instrumentos musicais de todo o mundo e pinturas orientalistas. A entrada custa €6 e inclui acesso à torre.

- Rue Saint-Antoine: A rua mais charmosa do Suquet, ladeada por restaurantes com terraços que servem cozinha provençal. É o melhor lugar para um jantar romântico com vista para o mar.

Uma curiosidade: Cannes, ao contrário do que muitos pensam, não era uma vila de pescadores. O Suquet era uma fortaleza militar e um centro comercial desde o século XI. A fama de "vila de pescadores" foi uma invenção dos guias turísticos do século XIX para atrair visitantes — e deu tão certo que Cannes se tornou a capital turística da Riviera Francesa.

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Capítulo

9. Festas, Fofocas e o Lado Obscuro do Festival

9.1 As Festas Mais Famosas da História de Cannes

Cannes não é apenas filmes — é também o lugar das festas mais lendárias do mundo do entretenimento. Durante os 12 dias do festival, a cidade recebe centenas de festas privadas, algumas das quais entraram para o folclore do festival.

A Festa do Amanhecer de Harvey Weinstein (anos 1990-2010): Durante décadas, o produtor Harvey Weinstein era o rei das festas de Cannes. Sua festa do amanhecer no Hotel du Cap-Eden-Roc (em Antibes, a 15 minutos de Cannes) era o evento mais cobiçado do festival. Começava à 1h da manhã e só terminava quando o sol nascia sobre o Mediterrâneo. As histórias de excessos — champanhe, caviar, celebridades em estado avançado de embriaguez — são lendárias. Após as denúncias de assédio sexual que derrubaram Weinstein em 2017, a festa deixou de existir.

A Festa de Aniversário de 70 anos do Festival (2017): Para celebrar sete décadas de Cannes, o festival organizou uma festa no Palais des Festivals que reuniu mais de 2.000 convidados, incluindo Isabelle Huppert, Nicole Kidman, Pedro Almodóvar e Will Smith. O ponto alto foi a apresentação de um balé inspirado nos filmes vencedores da Palma, coreografado por Benjamin Millepied.

A Festa da Magnum (anos 1950-1960): A agência de fotografia Magnum Photos organizava jantares elegantes no Hotel Carlton onde os maiores fotógrafos do mundo — Henri Cartier-Bresson, Robert Capa — registravam as estrelas em momentos descontraídos. Muitas das imagens mais icônicas do festival saíram desses jantares.

A Festa do Amor (2024): Após a vitória de Sean Baker com "Anora", o diretor organizou uma festa no Plage du Martinez que terminou com convidados dançando na areia ao som de techno russo — uma referência ao filme. O evento foi imortalizado em dezenas de vídeos no TikTok.

A Festa da Chopard: Desde 1997, a joalheria suíça Chopard organiza um jantar anual no Hotel du Cap-Eden-Roc para celebrar sua parceria com o festival. O evento é conhecido por reunir o maior número de Palmas de Ouro em uma única sala — todos os vencedores do ano são convidados.

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9.2 Histórias de Bastidores: Brigas, Namoros e Fofocas Reais

O tapete vermelho de Cannes já foi palco de momentos inesquecíveis — alguns românticos, outros constrangedores, todos reais.

O Encontro de Grace Kelly com o Príncipe Rainier (1955): A história mais romântica de Cannes. Grace Kelly foi fotografada pela revista _Paris Match_ durante o festival, e a sessão resultou em um encontro com o Príncipe Rainier III de Mônaco no Palais des Festivals. O resto é história: eles se casaram em 1956, e Grace se tornou Princesa de Mônaco. O encontro foi arranjado pela revista, que sabia do interesse do príncipe pela atriz.

A Briga Godard vs. Truffaut (1973): Os dois gigantes da Nouvelle Vague, que juntos haviam parado o festival em 1968, romperam publicamente em Cannes. Godard acusou Truffaut de ter se vendido ao cinema comercial; Truffaut respondeu em uma carta de 20 páginas que se tornou lendária. Eles nunca se reconciliaram.

O Tapa (não tão) Famoso (2022): Durante o festival daquele ano, Will Smith não estava presente (era o ano do tapa em Chris Rock no Oscar), mas Cannes teve seu próprio momento de tensão quando o ator Vincent Lindon — presidente do júri — criticou duramente a escalada de violência nos filmes da competição. O discurso foi interpretado como uma indireta para "Titane" (Julia Ducournau), que venceu a Palma.

O Escândalo Simone Silva (1954): A atriz britânica Simone Silva tirou a parte de cima do biquíni durante um ensaio fotográfico na praia com Robert Mitchum. Três fotógrafos caíram no mar, um quebrou o tornozelo e outro fraturou o cotovelo na confusão. Silva foi expulsa do festival no dia seguinte.

O "Furacão" Juliette Binoche (1990): A atriz francesa compareceu à première de "O Paciente Inglês" com um vestido verde que se rasgou na escadaria. Binoche continuou subindo como se nada tivesse acontecido, e o momento foi eleito um dos mais elegantes da história do tapete vermelho.

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9.3 O Lado Obscuro: Prostituição, Tráfico e a Cannes que Ninguém Vê

A face glamourosa de Cannes esconde um submundo que floresce durante o festival. A cada edição, a cidade se torna o epicentro de atividades ilegais que o festival prefere ignorar publicamente.

Prostituição de Luxo: Durante o festival, dezenas de agências de acompanhantes operam a partir de hotéis e apartamentos alugados, oferecendo "modelos" e "escort girls" por valores que podem chegar a €10.000 por noite. Os clientes são executivos da indústria, sheiks do petróleo e celebridades em busca de companhia. A polícia francesa realiza operações regulares, mas a prostituição em si não é ilegal na França — apenas o lenocínio (cafetinagem) e a exploração sexual.

Tráfico de Obras de Arte: Cannes atrai uma elite global, e com ela, o mercado paralelo de arte. Golpistas aproveitam a concentração de milionários para vender falsificações de pinturas e esculturas. Em 2019, uma operação da polícia recuperou €3 milhões em obras falsas negociadas durante o festival.

Falsificação de Convites: Um dos crimes mais comuns de Cannes. Convites falsos para festas e exibições são vendidos por até €500 nas ruas próximas ao Palais. Em 2023, uma quadrilha foi presa por falsificar credenciais profissionais — os convites eram tão perfeitos que só foram detectados quando o sistema informático do festival os rejeitou.

A Exploração dos Jovens: Centenas de jovens de toda a Europa viajam para Cannes durante o festival em busca de emprego temporário — como recepcionistas, garçons ou seguranças. Muitos são enganados por agências que prometem salários altos e não pagam, deixando-os sem dinheiro e sem passagem de volta.

O Mercado de Drogas: Cocaína e ecstasy são abundantes durante o festival, especialmente nas festas privadas. Os preços disparam — um grama de cocaína pode custar €200 (contra €60-80 no mercado normal de Paris). A polícia faz blitzes regulares, mas a escala do festival torna o controle quase impossível.

Para o turista comum, esse lado obscuro é invisível — a menos que se saiba onde procurar. Mas ele existe, e é parte integrante do ecossistema de Cannes, tão real quanto o tapete vermelho e as Palmas de Ouro.

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Capítulo

10. Cannes em Números e o Legado do Maior Festival do Mundo

10.1 Curiosidades que Ninguém Conta: Recordes, Números e Fatos Impressionantes

O Festival de Cannes é uma máquina de números impressionantes. Aqui estão alguns dos mais surpreendentes:

Recordes da Palma de Ouro:

- Maior número de Palmas: Francis Ford Coppola, Michael Haneke, Ken Loach, Irmãos Dardenne, Ruben Östlund e Cristian Mungiu são os únicos diretores com duas Palmas. Ninguém tem três.

- Primeira mulher a vencer: Jane Campion ("O Piano", 1993) — mas ela dividiu o prêmio com Chen Kaige ("Adeus, Minha Concubina").

- Primeira mulher a vencer sozinha: Julia Ducournau ("Titane", 2021).

- Diretor mais jovem: Delbert Mann tinha 35 anos quando venceu com "Marty" (1955).

- Diretor mais velho: Michael Haneke tinha 70 anos quando venceu com "Amor" (2012).

- Maior número de filmes na competição: 1946 — o primeiro ano — teve 41 filmes (e 11 vencedores).

- Anos sem Palma: 1948, 1950 (falta de dinheiro), 1968 (protestos) e 2020 (COVID-19).

Números do Festival (média por edição nos anos 2020):

- 16.000 filmes inscritos

- 20 a 22 filmes na Competição Oficial

- 5.000 jornalistas credenciados

- 40.000 profissionais credenciados (incluindo o Marché du Film)

- 150.000 visitantes durante o festival

- €200 milhões de impacto econômico anual para a região

A Palma de Ouro em Números:

- 118 gramas de ouro 18 quilates

- 19 folhas na haste da palma

- 40 horas de trabalho artesanal para fabricar

- 2 cópias produzidas por ano (a segunda é reserva)

- €70.000 de valor material (o valor simbólico é imensurável)

- 1 coração na base da haste (introduzido pela Chopard em 1997)

O Tapete Vermelho em Números:

- 24 degraus até a entrada do Grand Théâtre Lumière

- 20 minutos para subir (cronometrados)

- 600 metros de tapete vermelho usado durante todo o festival

- 3.000 fotógrafos credenciados por edição

Outros Recordes:

- País com mais Palmas: França (10 vitórias, incluindo as 11 de 1946).

- Filme mais rápido a vencer: "Marty" (1955) — tem apenas 90 minutos.

- Filme mais longo a vencer: "Inferno" — Crônica dos Anos de Fogo" (Mohammed Lakhdar-Hamina, 1975) — 177 minutos.

- Único filme brasileiro a vencer: "O Pagador de Promessas" (Anselmo Duarte, 1962).

- Filme mais controverso: "Viridiana" (Luis Buñuel, 1961) — condenado pelo Vaticano.

- Maior número de vaias: "Irreversível" (Gaspar Noé, 2002).

- Maior ovação: "Fahrenheit 9/11" (Michael Moore, 2004) — 20 minutos de aplausos.

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10.2 O Legado de Cannes: Por que o Festival Continua Relevante

Em um mundo onde o cinema está mudando radicalmente — com streaming, inteligência artificial e novas formas de consumo —, Cannes continua sendo o festival mais relevante do planeta. Por quê?

1. O Marché du Film: Enquanto outros festivais lutam para se manter financeiramente, Cannes tem o maior mercado de cinema do mundo. Mais de 15 mil profissionais se reúnem para comprar e vender filmes, movimentando centenas de milhões de dólares em negócios. Nenhum festival chega perto.

2. O Prestígio Imbatível: Uma Palma de Ouro vale mais para a carreira de um diretor do que qualquer outro prêmio. Diretores como Bong Joon-ho ("Parasita") e Jane Campion ("O Piano") tiveram suas carreiras transformadas pela Palma. O Oscar pode vir depois, mas a Palma é o selo de qualidade artística que ninguém pode comprar.

3. A Descoberta de Novos Talentos: Cannes continua sendo o lugar onde novos diretores são descobertos. Julia Ducournau (Palma 2021), Justine Triet (Palma 2023) e Sean Baker (Palma 2024) são exemplos de diretores que explodiram mundialmente após vencer em Cannes.

4. O Glamour como Negócio: Em um mundo cada vez mais digital, Cannes oferece algo que o streaming não pode: o encontro físico entre a indústria, a imprensa e o público. O tapete vermelho, as festas, os jantares — são todos parte de um ecossistema que gera valor para a indústria cinematográfica.

5. A Resistência ao Streaming: Cannes é o único grande festival que baniu a Netflix da competição oficial (desde 2018). A decisão é controversa, mas reflete a defesa intransigente do cinema como experiência coletiva — em uma sala escura, com uma plateia, sem pausas para ir à cozinha.

6. O Cinema Como Arte Política: Em um mundo em crise, Cannes continua sendo o palco onde o cinema se engaja. Da guerra da Ucrânia ao movimento #MeToo, dos protestos no Irã às mudanças climáticas — Cannes dá voz aos filmes que ousam questionar o poder.

O legado de Cannes não está apenas nos filmes que premiou, mas na ideia que o fundou em 1939: a de que o cinema é uma forma de liberdade que precisa ser protegida — contra a censura, contra o mercado, contra a indiferença.

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10.3 Dicas Finais: O Roteiro Perfeito para o Turista Visitante

Para o turista que planeja visitar Cannes durante o festival, aqui está um roteiro prático de 3 dias:

Dia 1 — Chegada e Aclimatação:

- Manhã: Chegue a Cannes de trem (TGV de Paris em 5 horas) ou de avião (Aeroporto Nice-Côte d'Azur, depois trem de 30 minutos). Faça check-in no hotel — reserve com pelo menos 6 meses de antecedência (os preços triplicam durante o festival).

- Tarde: Caminhe pela Croisette do Palais até o Palm Beach (1 hora de passeio). Pare para um café no Carlton Beach.

- Noite: Jantar no Suquet (Rue Saint-Antoine) e suba até a Tour du Mont Chevalier para ver o pôr do sol.

Dia 2 — Imersão no Festival:

- Manhã: Visite o Palais des Festivals por fora (a entrada é restrita, mas a área externa é livre). Veja os painéis dos filmes da competição afixados na fachada.

- Tarde: Vá ao Vieux Port para ver os iates dos milionários. Em seguida, pegue o barco para as Ilhas de Lérins (ida e volta: €15). Visite o mosteiro em Saint-Honorat e a fortaleza em Sainte-Marguerite (onde o Homem da Máscara de Ferro foi preso).

- Noite: Cinema de la Plage (gratuito, ao ar livre). Chegue cedo para garantir um bom lugar na areia. A programação é divulgada no site do festival.

Dia 3 — Cultura e Gastronomia:

- Manhã: Marché Forville para comprar queijos, azeitonas e pães para um piquenique. Depois, visite o Musée de la Castre (€6) e desça a colina do Suquet.

- Tarde: Praia pública na Plage du Midi (a oeste do porto, mais tranquila). Se preferir, alugue uma espreguiçadeira em uma praia privada — o Plage Goéland é uma das melhores opções de custo-benefício (€25 por dia).

- Noite: Jantar no Chez Astoux & Brun (frutos do mar) ou, para algo mais simples, uma socca na Chez Tintin. Despedida com um drinque no bar do Hotel Martinez — o lugar perfeito para brindar ao sol se pondo sobre a Croisette.

Regras de Ouro:

- Reserve tudo com antecedência. Hotéis, restaurantes e até as espreguiçadeiras de praia lotam durante o festival.

- Use sapatos confortáveis. Cannes se percorre a pé, e o salto alto é desnecessário (ao contrário do que o festival tenta fazer crer).

- Leve protetor solar e chapéu. O sol de maio no sul da França é forte — e as filas são longas.

- Aprenda algumas palavras em francês. "Bonjour", "merci", "s'il vous plaît" abrem portas na França muito mais do que em qualquer outro país.

- Não tente parecer celebridade. Os seguranças do festival reconhecem um credencial falsa a 50 metros de distância. Aproveite Cannes como turista, não como impostor.

Cannes é uma cidade que vive para o festival — mas que oferece muito mais do que o tapete vermelho. Praias, história, gastronomia e a atmosfera única da Riviera Francesa fazem dela um destino inesquecível, esteja o festival acontecendo ou não.